quarta-feira, 25 de maio de 2011

Poetisa


Certa lembrança rasgou dentro de mim os meus diários indeléveis
Vi nas ruas o reflexo de cães melancólicos que vagavam em infinita jornada
Fui banhado por ondas catastróficas de águas salgadas, ao sentar na sarjeta de sua rua
Lembrei de tempos passados em que me recolhia no calor de seus seios
E um bilhete rabiscado recebi de um mensageiro indecifrável

Olhei o papel envelhecido pelo tempo, e sua letra ali estava quase recém escrita
A dor da morte em meu peito apertava e aquela lembrança me remoia
Pensar no tempo em que te amava, mesmo um amor não consumado
Refazia minhas fábulas e cada personagem que eu vivia
Sempre herói tu me fizeste ainda que tão fraco e impotente

Aquela manhã jamais esquecerei... Quando acordei com imensuráveis sentimentos
Não havia forma alguma que minha mente entendesse, mas fui tomado de energia
Corri enlouquecido sem saber o rumo que tomara, não parei em nenhuma esquina
Não sei dizer se cheguei dormindo ou acordado, mas vi você no chão estendida
Na frente de sua casa uma multidão lhe rodeava. Fui banido de ver o que ali ocorrera

Eu sabia muito bem do que se tratava. Percebi que seu respirar eu já não mais sentia
Sua ida foi acompanhada de um crepúsculo fulgurante. Minha poetiza havia partido
Sem haver despedida, nem último beijo foi-se para o reduto onde nascem as palavras
Talvez um dia eu me torne eterno como tu, ou eu seja enterrado no olhar daqueles cães
O escuro hoje é meu aposento que resguardo meu lamento junto com a melancolia.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Está escrito

Admiro cada palavra que escondo no meu não dizer;
tudo o que penso em ocultar, torna-se gritante no escrever silencioso.
Apesar de não falar, certo estou de que do calar não sou escravo!
Talvez tenhas razão ao mentires sobre minhas verdades.
                                                                     
 Cada gota de tinta que pinta meus papéis, um dia pintaram sua etérea beleza...
 Ao escrever, ando das igrejas aos bordéis à procura do desconhecido;
 Encontro leveza, a neblina e os mistérios do além – Meus passos não deixam rastros.
 Meu silêncio escreve enigmas velhos em novas páginas do livro da vida

Toda flor um dia murcha, ou se resseca em livros fechados.
O que dizer ao beijar quem se ama? Pra que falar se o outro já entendeu?
Amo o silêncio e me calo sozinho. Por que dizer aquilo já estava escrito?
Pro acalento do útero retorno! Não preciso falar, mas apenas escutar o que já foi proferido.



domingo, 15 de maio de 2011

O silêncio de um morcego

No sótão da casa de Emília, havia um morcego que ali vivia.
Os raios do sol jamais bateram em sua sensível pele,
um fantasmagórico ser que nenhum som emitia.
Não era grande nem pequeno, nem filhote ou muito velho.

Não se sabia de onde viera, nem parecia ser amigável;
De cor negra e grande olhos, em suas asas se escondia.
No escurecer do dia o sangue dos ratos o alimentava,
mas para cada rato assassinado, sua sede só crescia.

Emília, uma inocente criança, não sabia do horror lhe viria a acontecer:
Em uma sexta-feira, de nublado céu e lua cheia, barulhos no sótão escutou.
Era meia noite, e seus pais já dormiam – Acorda assustada e, olha a janela;
Estava um tanto escancarada e a luz da lua no chão batia.

A curiosidade, em seu pequeno coração, aumentava ao som que ouvia.
Extremamente aflita e angustiada, lentamente caminha até a porta...
O ruído cresce... E o sangue de Emília, por um instante, parece que não existia.
Ao olhar da fechadura nada de estranho encontrou.

No fim do corredor, mais uma janela aberta avista – Imensa, larga, bucólica e horrenda.
Sente um vento frio e sua pele arrepia. Mas o ruído que escutara parece ter uma direção
Ergue seus olhos e vê uma escada – Sobe sem pestanejar, sem ter ideia de para onde iria.
O morcego percebe o som da porta que se abre; Voa velozmente para a parte mais sombria.

Esse tenebroso ser se cala ao sentir o frenético bater do coração daquela menina.
A armadilha é arquitetada pela mente sagaz de um animal ensandecido...
Emília pergunta com voz baixa e muito trêmula: Olá! Tem alguém que possa me ouvir?
O morcego lhe responde – Falo pouco, quase nada, mas eu sou um bom ouvinte.

Emília fica assustada, paralisada e emudecida. Tenta correr, mas não consegue,
parece estar entorpecida. Sua voz desaparece mesmo dentro de sua mente.
O ar frio dá lugar ao quente, no respirar dentre os dentes do mostro que lhe mordia.
Seus olhos perdem a vida que lhe é totalmente aniquilada.

No amanhecer, em seu corpo já não havia mais sangue e nem coração que pudesse bater.
Parecia estar dormindo em um sono profundo – O cadáver é iluminado pela luz do novo dia.
Seus pais ficaram atormentados à procura da menina. Gritavam bem alto seu nome,
mas o silêncio do sótão continuou... E a busca desses pais até hoje não se findou.




terça-feira, 10 de maio de 2011

Boemia de um vampiro

O céu anoitece e resplandece seu corpo:
Vislumbres meticulosos em afagos infindáveis.
Parado a olhar a escuridão daquela noite,
Vejo-te a contemplar certas águas que lhe entorpecem.

Seres míticos e aquáticos emergem no horizonte obscuro,
e meus sorrisos tímidos entrelaçam o seu.
Acredito ser fruto de paixões já vividas;
Fica escrito na água, nos rastros do vento.

Não há nada que mude um minuto desse tempo!
Sinto meu corpo, de coração frio, se aquecer em beijos incandescentes.
Na escuridão da madrugada percebo a constelação de seu olhar
com maliciosos sorrisos, em transe me espera com o corpo já despido.

O tempo parece correr competindo com velozes maratonistas:
Em um momento a lua sorri, em outro já é engolida.
Exautorado de meu posto, por seus beijos, por inúmeros corvos...
E o canto da lua encanta meus contos – Na rua deserta me leva e guia.

O calar da noite se quebra com as ondas de um rio-mar,
e é em seu desejo que impera minha fome animalesca;
Antropofagia incontrolável – É  seu sangue que me sacia!
Entrastes neste jogo, onde o prazer é o seu prêmio e o ritual a boemia.