quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Gueixa

Doce voz de um anjo misterioso;
Gorjeios melosos de ti eu escuto
Uma gueixa silenciada com olhos falantes
Lábios brilhantes em excelsa doçura

Pele branca reluzente, manhosa e ardente
Seduz com sua beleza: será condessa ou medusa?
É admirada e cobiçada... A erudita do flertar 
Com ornamentos colossais do pecar é imperatriz

Diga-me seu nome. Quero uivos escutar
Das viagens que eu tive, moças belas encontrei
Mas nenhuma delas tinha um lindo rosto como o teu

Por ti farei loucuras ao exaurir minhas idéias
Exaltarei seu nome e na babilônia viverei
Largo tudo se vieres e a paixão se entregar
Quero ter o teu prazer, talvez ser mais um amante
Com voz pura e dissonante diga sim para me amar.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Maysa

http://www.youtube.com/watch?v=F5VhysNAMlM&feature=related

Numa noite de carnaval calada ali estava
Com respirar silenciado tragava seu cigarro
Olhar penetrado em sentimentos controversos
Doía sua alma com rancores transtornantes

Era como um cristal que se quebra em mil pedaços
Amargurada e intensa viu nas sombras tristes versos
Ao amor se entregou, mas se eternizou nas mágoas
Cantava em imensos palcos. Os bares eram seus amantes

Hoje escuto entusiasmado, as canções de uma deusa
Emociono-me calado, isolado em suas prosas
Uma voz tão transgressora me fisgou em crescimento
Sentimentos e lamúrias; uma jovem vitimada

Uma estrela hoje brilha com um nome agora eterno
Saudade nos deixou, partindo para história
Reverenciada e odiada, viveu uma vida conturbada
Ouço hoje suas palavras, embelecidas e aveludadas
Faz meu mundo cair; reviver em pleno nada
Demais me vi chorar por perder você na estrada.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Amor de um vassalo

Ele a observa com olhos vidrados. É ela, uma jovem moçoila que mora ao lado
Com cores azuis o céu a pinta os olhos. Dando vida, amor, e dons maternais
Pensa ele no possível encontro que a vida pode lhes dar;
Perdendo o medo de amar, assim continua a observar tão nobre beleza

Dois amantes que nunca se tocaram. Pulsantes vidas com lábios errantes
A espera de um beijo ambos sonham acordado. Impossíveis desejos no mundo real
Ela é nobre e ele um simples empregado que limpa o gramado no inverno e verão
Cabelos cumpridos, macios e alongados... Ela é a deusa desse jovem rapaz

Um encontro é marcado, calculado pelo destino. Às cinco da tarde no campo se cruzam
Somem as palavras... Cessa-se o respirar. Gaguejam nervosos em cada sílaba emudecida
Ele se aproxima tão nervoso e inconseqüente. Ela o abraça cingindo-o com o calor
Sem escutarem palavras conversam com os corpos. Flamejantes sentimentos
Que crescem e ardem aos ventos de uma primavera açucarada

Amantes parados no tempo, um fotográfico momento que se eterna na memória
Após os beijos untados pedidos de amor, com força e vigor, se ouvem declamados
Paixões ardentes lhes vinham à mente e, com o coração dormente se olhavam calados

Uma estória de amor sem o final esperado. Os pais da donzela descobrem o ocorrido
Não podem aceitar esse amor proibido... O jovem é mandado para longe do recinto
Da boca dos nobres maldades se proferem; amantes separados às vésperas da lua cheia
Assim termina um sonho juvenil. Impedido e destroçado por um preconceito infantil

Desiludidos buscam alguma forma de contato. A empregada da donzela, então ajuda de
Bom grado
Leva as cartas do rapaz ao quarto escondido... Lágrimas caem ao ler as palavras e ao
Final vê um pedido
Fuja comigo para longe de seus pais. Assim seremos felizes como já mais imaginaste
Quero dar-te o mais puro dos sentimentos; corações entrelaçados dois amantes imortais

Ela pensa com carinho, com cuidado e atenção. Decide assim fugir na calada da manhã
Poucos metros depois seu pai então a vê. Não acredita na loucura que ela acaba de fazer
A jovem tenta fugir, mas não é muito veloz...  Seu pai enfurecido torna-se um algoz
Arrasta-a para casa sem carinho ou pena. Com um choro bem profundo grita sem parar
Assim acaba aquele sonho tão feliz: de poder ficar junto do amado que a quis

O rapaz ainda espera semana após semana que sua amada o encontre
Mas a triste notícia ele recebe pelas cartas. A moça é internada num convento da cidade
O desespero nele bate, pois perdeu sua paixão...
A loucura o abraça e conforta sua dor. Essa é a estória de um jovem vassalo
Que descobre um grande amor, mas no delírio é encontrado.

Quarto mundo

São seis horas! Deitado estou em minha cova
Micro vida, micro mundo... Esse é meu refúgio, habitado por mim, visitado por ninguém
Quarto meu! Reduto de morcegos, animais peçonhentos. Retratos de sons e imagens feitas pelos ventos
Meu mundo de idéias, lamúrias e nostálgicos inventos
Casulo meu! Aqui vejo minha transformação, meus pés saírem do chão voando com o pó
Não sou só... Vivo com meus “eus”. Tecendo desejos que recobrem as palavras, desatam perguntas e criam estradas
Anátemas palavras! Não as domino, nem as domestico... Por que arrancam de mim sentimentos e emoções, desmatando minha floresta? Oh floresta de insinuações!
Quarto meu! Dias de glória... Noites perdidas, roubadas pelo esquecimento. Aprisionadas pelo tempo. No inverno surge a angústia, cria-se o vício brota a astúcia
Mudanças! Mobilhas novas; Velhas lembranças. Arte em tudo... Quarto ouvinte, quarto mudo
Um velho sábio, um bom observador. Astuto nos sorrisos; com padecente, um vingador
Um suspiro ele dá, roubando o meu ar. Janelas se fecham e ninguém pode entrar
A porta não abre a porta não fecha... Existe entre os tijolos, e ao lado uma mesa
Mesa de livros, sabres, conhecimentos. Mesa de paz, guerra, cóleras e embotamentos
Esse é meu quarto! Na terceira dimensão... Profundo, largo, espaçoso e tenebroso
Não há teto, não há piso. O telhado é formado de sonhos, e esse chão um belo sorriso
Entre se for capaz! Prepare-se com a dor. Vista-se com a ignomínia
Abra a porta e veja as coleções. Anjos, diabos, vultos e intenções
Não se assuste! Observe, debata, mas nunca discuta
Esse é o meu assim. Meu grito, minha dor, meu meio, começo... Meu fim!

Perdido em minha mente

O sol já nasceu... Um grito eu escuto
Milhares de passos, centenas de assentos
Fugindo de mim estou. Esse é meu lado de dentro
Caminhos medonhos, lagos escuros
Balões coloridos em um céu nublado
Lentas imagens de um filme francês
Pessoas caminham em ruas estreitas
Luzes frias, um eterno outono
Todos me olham, atentos, suspeitos
Risadas e assobios. Notas aromáticas, ar gélido, calafrios
Sinto o cheiro de chuva em uma gota pingada
Contra todos eu ando, contraluz eles correm
Almas penadas, sem asas no ar
Milhares de vozes, de praias sem mar
O fora fica La dentro... Esconde-se com o silêncio
Tudo é fumaça... É frio! Prédios vazios com novas vidraças

Existo

As correntes, os ventos, os anos... O tempo!
Formado pela essência do crescimento, molda ações, instiga dimensões.
Enquanto existir a memória ele subsistirá, correndo junto com esses pensamentos.
O agora não existe, pois enquanto pensamos em mensurá-lo e estagná-lo,
do passado ele nos saúda. Ferozes memórias! Não sabemos do agora a não ser quando ele já se tornou passado. Não fujo do instante, apenas espero ele passar e entrar em meus arquivos.

Como posso estar aqui nesse momento, sem que meu corpo tenha que se lembrar de toda sua existência, e re-captar aquilo que já existiu se transformar no porvir?
Mundo de paradoxos! Olhos atentos, luzes e sombras; O senhor de si mesmo atraca sagazmente seu domínio. Essa paciência idiossincrática que me move à teleologia enigmática... Muda conceitos e transforma-me nesse próprio existir! 

Eu não sou! Apenas existo no rastro do tempo. Os cheiros, os sabores, as ilusões de ser fabricam soberbos, muda a natureza de cada desejo e destila veneno em cada verme que habita nas vielas de sua mente, que ao morrer, dá lugar a existência do “eu sei”. Quanta hipocrisia do acaso!

Meu nome é não sei! Minha morada está no horizonte do existir. Meus sonhos são meras lembranças daquilo que nunca houve. Boa existência para seus pensamentos! Verei você novamente no espelho do meu eu... Quem me verá em seu espelho? Não importa! O eu não é tudo, ele é apenas um grito do querer. Obrigado por não me ver... Nem tecer seu eu com essa teia de “tus”.

Rio madeira

No rio tem estórias... Lá tenho morada
 Um folclore que encanta que dança e enfeitiça
Gente que sabe, conhece essas águas
Com olhos sofridos contemplam essa vida
Pés descalços que pisam no rio
 Na beira há moradas, crianças se criam 
Um universo distante bem perto de ti
 Idosos falantes uns velhos tão sabidos
Que sabem de tudo, respostas eles têm
Se o pescado é bem farto, logo agradecem
 Com mãos para o alto e preces nos lábios
Pra casa eles voltam no fim desse dia
Gratos estão, pois na mesa hoje há o pão
E é do rio que eles tiram o sustento da vida
Excluídos de todos na pacata morada
Assim vivem eles, sob tetos de palha
De madeira é o chão... Arte feita pelo pai
Artesão de nascença e que propaga sua crença
Na beira do rio constroem essa história
Com sorrisos e lágrimas, e suor na camisa
Enfrentam a selva e os perigos que vêem
Desse jeito simplório, sensato e gentil
Acordam bem cedo, com coragem e vigor
Com família formada e um sonho na mente
Que do rio venha o pão e na boca haja dentes
Desse jeito nos ensina em tão simples vivência
A cultura de um povo esquecido pelo progresso
E abandonada pela ciência.                                  

Cegos invisíveis


Seus olhos. Esses são seus?
Quais? Não os vê? Feche-os, morda-os, arranque-os!
Vejam os cegos olhando pra você. Por que tu não os vês?
Cortinas abertas, o espetáculo já começou. Sorrisos rasgados, luzes, aplausos.
Veja! Interprete a facécia desse seu escuro. Sua sombra, ela é sua? Observe os movimentos oculares; Luzes ascendem. Brilhos, reflexos, criam-se os versos! Escritos seus sobre uma luz sombria. Cartas incandescentes! Por que tu não as vês?

Seus olhos trêmulos, preocupados. Cílios longos, escuros, colados...
O sol raiou! – Coisa essa que sua visão jamais contemplou. Detalhes percorrem as luzes. E tu, cego estás; Um mundo fechado, as mesmas palavras, os mesmos finais.
O novo te observa. Novos tons, novas cores. Muitos amores, encontrados em novos olhares.

Dê uma chance ao mundo vidente, que sorri e lhe mostra os dentes.
As cortinas estão se fechando – O sol já está indo e a noite chegando!
Mais um dia se passou e você não me disse se é um viajante, um cego, a própria coisa, ou um sonhador... Se não quer ver, essa é sua escolha, sua hipótese, seu querer.
No entanto, deixe a mim um dizer: Por que tu velho sábio e conhecedor, se abstém da vida, da glória, do medo, do horror?

Poeta da montanha

Sentado no alto da montanha, vejo nuvens, pássaros, terras
Ali me torno imortal. Sou uma fera que se alimenta de sonhos
Em silêncio construo reinos... Em pensamento destruo ídolos
Não quero virtudes. Quero apenas os acasos, os incertos
Sem medo da morte respiro bem fundo. Acima das nuvens quero estar
Banhar-me com o sangue que jorra do teu medo. Apenas o imperfeito da vida, do opróbrio na existência
Não quero aplausos dos hipócritas, nem fama ou sorrisos. Prefiro subir, findar-se no tempo
Que me enterrem dentro de mim após ouvirem meus poemas
Não espero ser aprovado nem ao menos entendido. Quero apenas que perceba meus olhares e sorrisos
Assim tiro proveito dos signos que me rodeiam. Cada mensagem que arremesso é para o universo que eu miro
Cuspo ao vento meus desejos, que desintegra essa regra. O todo e o tudo que se funde e se afoga em minhas mágoas
São as leis desse universo que se dissipam em meu ser. É um viver bem protegido carregado de escudos
Talvez eu ouça esses gritos que de ti me vem correndo. Em minhas veias há sangue novo, bem escarlate e abundante
Queres vida onde há guerra? Um sobrevivente eu quero ser... Que da batalha eu ganhe o mundo e, dentro de mim eu tenha glória
Um gramado verdejante com inscrições em cada pedra. Ali repousarei... Esquecido em sua memória. Talvez eu volte em seus sonhos ou na revolução de suas idéias!
Chuvas de verão
Respingos de chuva nas vitrines das lojas
Suaves gotas de um refrigério banal
Por cima das casas, nas asas, nos muros
Nas ruas têm águas que posso pisar
Como vou correr sem me molhar?
Escorre no rosto uma água salgada
As nuvens choram, por tudo e por nada
O relógio anda e as horas não passam
Carros nas ruas com luzes acesas
Placas na pista com avisos incertos
Corre o tempo, o vento e mundo
Noite escura, vazia, sem nada
Chuvas da vida com águas passadas
Olhos molhados na porta de casa
Corpo enxuto no meio da chuva
Estou na calçada e agora o que faço?
Com o guarda chuva quebrado aceito essa cena
Molhe-me a cabeça e meu corpo sem pena
Infância revivida nas gotas que caem
Melhora meu drama que se finda, se vai...
Deserto dos poetas


O tempo mastiga cada imagem que entra na alma desses viajantes solitários que se arriscam no árido deserto da mente. Olhando para o horizonte, eles correm, sabendo que um dia encontraram as respostas das perguntas que os guiam como uma bússola sem norte nem sul, apenas com uma agulha que gira em seu próprio eixo.

Embriagados com o rum da discórdia são levados pelo vento a um oásis que se forma nesse deserto... Ali matam a sede e se aliviam bebendo grandes dozes de loucura e genialidade. Vejo como eles crescem a cada passo que dão na direção do fim que os aguarda pacientemente. Do lado de cada um deles a morte caminha como um cão-guia companheiro e fiel... Ela se mantém aposta, esperando o dia em que se alimentará das sombras de cada um deles.

Meu futuro se encontra com o desses viajantes e, percebo que o que eles buscam é aquilo que estou a desejar. Caminho até a porta da razão e, sem medo entro naquele inóspito deserto. Respiro esse novo ar e meu corpo sente que o calor sol do saber é tão refrescante quanto às águas dos Alpes suíços. Cada idéia que tenho, ganha vida, torna-se real e extasiante.

Não tenho nada de eterno a não ser meus pensamentos. Não quero aprisioná-los e jogá-los no buraco da preguiça, onde serão consumidos lentamente até serem destruídos. Preciso viver, preciso respirar... Não me impeça de voar ao invés de correr. Não quero atolar no caminho, e sim, ver tudo o que tenho a enfrentar pela frente e, não fugir de nada. Aquilo que vejo hoje já não é mais o que outros viram antes de mim... Quero ver tudo o que existe nesse caminho como se ninguém antes tivesse imaginado.

Alguns se desfalecem no caminho e, já exaustos, começam a escrever sobre seus próprios túmulos um legado de medo e decepção. O cemitério onde se encontram esses túmulos fica no fundo das areias movediças que se estendem por todo o trajeto dos viajantes.

Cemitério que engole os fracos e traz desespero aos seguidores dos normais. A senhora morte já cavou minha cova nesse repouso, e todos os olhos me vêem como se eu fosse cair ali a qualquer momento. Mas percebo que esse magnetismo não é mais forte que meu sarcasmo... Esses olhos me observam e, o que consigo ver neles são medos e lástimas. Meus passos não marcarão aquele solo tenebroso. Esconder-se ali é se deixar levar pela inexistência. O que mais desejo é pisar naquelas terras que ficam depois da linha do horizonte.

Meus olhos brilham ao ver a luz do sorriso daquele maravilhoso sol que por detrás das últimas dunas do deserto, iluminam meus sonhos e me encantam como uma sereia no mar que anuncia seu canto irreverente. Assim percebo que para cada passo que dou uma idéia é preciso se criar dentro de mim e, isso me fascina como os suaves dedilhados de uma donzela ao tocar seu majestoso violino.

Isso me faz Mudar como os ventos do norte em busca das brisas do sul... E agora não canso de buscar eu mesmo em outros ventos. Se por acaso você me encontrar, diga-me como estou; quem eu sou e quem eu nunca fui. Se sentir minha falta, não tenha medo de me entregar suas lágrimas, e também não fuja delas. Mas as guarde naquele precioso frasco que lhe dei chamado saudade, e ali será meu eterno aposento.
                                                                           

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Alquimista do poder

O mais que posso lidar é o nada!
Não sou egoísta, nem ao menos cruel,
mas esta é sua parte – De mim tu és herdeiro.
Já comi muitas partes do que já foi um alguém;
Não vejo a carne, nem sangue ou nome,
mas pra dentro de mim, milhares devorei.

Pessoas distintas engoli sem temer.
São homens, mulheres, terras, povos...
Mas saibas que tudo o que fiz que vi ou escutei,
jamais comerás nem ao menos um grão,
pois meu corpo já arde em um fogo imortal.
Talvez seja eu um buraco escuro e sugador,
que engole matéria e ilusões – Um infinito de sinapses.

De mim não terás nem meu corpo ou migalhas,
Pois sou selvagem canibal de terras longínquas,
que come seu totem e mais forte que ele fica.
Assim vive meu nome: com as lendas e as vísceras! 
Eu devoro o que é forte, desse prato eu saboreio;
São heróis que introjeto exaltando com o honrar.

Sinto apetite em escutar cada nome desses grandes,
mas tu não comeras nenhuma parte do meu corpo...
Sou eu um monstro nato, um vácuo sem desvios;
Destruo as trilhas mórbidas de vidas temerosas
e Sou essa força que tu não compreendes.

Em breves milênios então tu saberás
como é o salivar no mastigar de cada dente.
Com sua dor, me tornarei um herói ou faraó.
Pela vida imolada que me deste ao morrer,
Eterno então serei: um grandioso mercenário,
um alquimista majestoso que se transformou em rei.

Deusa onírica

Seus olhos cortantes e sedutores transpassam as cadeias dos mais íntimos desejos de um reles amante em suas loucuras de adolescência. Seus cabelos pretos, curtos e lisos, manifestam em si o reflexo de um espelho que foi pintado por um artista em pleno estado de euforia. Parecem ser lambidos pelo orvalho da noite de um gélido coração parisiense

O seu sorriso se alastra como um rio em busca do mar. Sereno, mas ao mesmo tempo tempestuoso. Hipnotizador desde sua nascente, proveniente das fontes celestes do encanto. A maravilha de vê-la sorrindo é mais compensadora que ver o vôo dos pardais. Uma cena que é vista em câmera lenta, que se arrasta pela retina e se aloja na memória.

É admirável olhá-la ao entardecer, sentir sua fragrância ao passar ao lado. Como é doce e sensível seu cheiro, uma mistura de sorrisos e nostalgia. Ao seguir seu rumo, esse aroma é admirado e reverenciado pelo vento do outono.

Percebo sua presença e nada mais me importa... Esse momento se torna minha arte. Eu a admiro em um silêncio ensurdecedor, imóvel quase sem vida. Mas dentro de mim escuto uma multidão de aplausos, semelhante ao som da chuva que cai em uma longa e rara chuvosa noite de verão.

Não! Não irei embora, até que ela tenha partido. Mas não se vá agora, não antes de olhar nos meus olhos por pelo ao menos três segundos. Deixe-me sonhar nesse infinito instante! Não fuja do meu alvo, sem que as minhas palavras lhe encontrem. Mas essas súplicas ninguém consegue ouvir. Falo, mas parece não haver voz que dê carona aos meus pensamentos.

Ouço o som de seu caminhar que se vai passo a passo, destrinchando minhas dúvidas, como faz o filósofo quando sonha e acorda na sala de estar de um trauma infantil. Ela prossegue e some na luz das pérolas que encontramos no fundo dos olhos daqueles que a rodeiam. Onde estão meus pensamentos, se não nessa idéia fixa que me consome até a alma? Pensamentos que são engolidos pelo monstro do medo. Nunca a alcançarei! Parece que jamais entrarei nos seus oceânicos olhos. Esse guardião me amedronta de dia e de noite e sem piedade nem compaixão crescer com o correr do ponteiro do relógio.

Meu coração é espremido, e se despedaça no caminho da ilusão. Guardada está aquela que me fez sentir o que é amar, que entrou em meus sonhos e ali habitou sem se preocupar, sem admirar aquilo que lhe dei. Ela é a rainha que veio de longe e dominou meu império. Roubou meus desejos e agora a busco em uma caçada infindável.

Sentir o voar das borboletas dentro de si nos faz sorrir com a dor, mergulhar nas ondas do ódio e flutuar no lago da paciência. Tornam-se loucos aqueles que se deliciam experimentando esse saboroso delírio. Mas diga-me como não desejar essa sobremesa?Impossível fugir sem se machucar, sem ferir o sagrado e explorar o profano.

Espero sua próxima visita. E já estou sentado em um banco chamado desespero, lugar de angústia e solidão. Aguardo olhando para o relógio, porque sei que na vigésima quinta hora você retornará. Fecho os olhos, sabendo que seu retorno ao meu mundo onírico não tardará. Já estou quase acordando, e um sorriso escuto de longe. Ela ri e a luz do dia entra no meu quarto sem pedir licença. Percebo que novamente voltei ao mundo onde os sonhos são loucuras vestidas com o terno da desesperança. Mas sei que meus olhos novamente se fecharão, e isso me faz seguir pensando no seu mágico caminhar.
                                                                                 
                                                                     (Melquizedeque de Melo Alemão, 05 de novembro 2010)

Senhora solidão

Ao olhar as montanhas, respirar a luz do sol... vêm à tona reflexões, multidões de indagações, uma tela de desilusões remanescentes das vãs privações.

Sem se preocupar com o universo a sua volta ela encontra dentro de si símbolos que lhe mostram como entrar cada vez mais em mundo que a ensina a arte do observar. Quem mostrará a ela sua própria imagem refletida nas pedras da lua?

Olhos frios que se deleitam em olhar o espelho da alma, que mudam de foco, mas nunca se desarmam. Cortando o tecido da realidade ela encontra mudanças, vasculha lembranças e sem querer observa aquilo não existe.

Essa vida pueril que se passa, ela analisa fora de sua própria existência. É como paginar um livro velho quase intocável onde re-aparecem os gritos do vazio, que vibram cada molécula de ar em sua volta. Mundo do nada! Mundo dos ensejos!

Ela existe em cada pensamento fértil... Ela é o adubo do seu próprio desprezo. Mastiga palavras e engole respostas. Pupilas que se dilatam no sofrimento e bramam gritos que implode seu ideal de ser. Loucos pensamentos existem em cada sílaba que ela não pronuncia! Seus dentes tornam-se cadeias e prendem uma loucura desesperadora.

Quem é normal? Quem pode ser a norma? Quem já foi o impossível? Tudo o que ela busca é seu próprio mundo, suas próprias leis, seu próprio tudo dentro desse imenso nada!

Sou seu amigo imaginário! Existo em seus símbolos mascarado com umas de suas personas mordazes. Não sou convidado! Entrei nesse “seu mundo” como um vírus... E estou à espera de ser destruído para que você cresça e se fortaleça.

Alguns conhecem seu eu, outros conhecem seu sim... Mas todo o resto admira o seu talvez. Sábio talvez! Tão certo com essa aristocrática incerteza. Continue assim, purificando o mundo dessa degenerescência intelectual. Conte-nos suas certezas brincando com todas essas falácias... Ascenda o fogo e veja essas verdades se transformarem em cinzas!

                                                  (Melquizedeque de M. Alemão, 09 de dezembro de 2010)