quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Catalepsia

As pegadas inscritas no concreto seco
de um beco sem saída, em pleno deserto,
foram as únicas obras-primas que deixei
após percorrer o caminho dos espectros.
Os quais, assombraram-me na infância
com o som de suas correntes de umbanda
envolta de máscaras oblíquas.

Catexia expectorante continha nas pílulas
do esquecimento que tomei ao acordar.
Quando avistei no núcleo galáctico, dragões siberianos
irradiantes a deslisar em flocos de neve contraventores,
friccionei minhas pálpebras desbotadas
com o calor de minhas esquálidas mãos.

Ao ver aquela sombra no corredor, excitei-me;
Congelada na luz escura de minh'alma,
esta sempre foi minha companheira.
Combateu por mim a insônia diária
alimentada pelos fluxos de pensamentos,
dos quais, tento, mas não fujo.
- Apocalípticos momentos!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Uma esquina qualquer

Naquela esquina caminhei
com passos rítmicos contados,
e olhos esquivos para antibióticos
de telúricos estudos antropogeográficos.
Constrangido por um tédio amniótico
contaminado com as incertezas do verso;
- Sim, fiquei na esquina parado!

Congelado no tempo que se vaporiza,
ultrajado pelo abraço uterino de
uma placa anêmica, onde vi passar
Judite – Andromaníaca de sagitário.

Olhos baixos para os cantos;
Epiderme banhada com os sulcos
gástricos que cai como orvalho matinal.
Donzela e mosqueteiro;
- Viúva negra de sagitário.

Pés descalços no chão frio
onde balbuciava meu nome.
Rosto de ternura pitoresca
cristalizada no retrato antigo;
- Monalisa de sagitário.

Maresia

*Clima chuvoso,
  *tédio no ar,
*corpo dengoso,
  *preguiça ocular.

*Livro fechado
  *na estante de casa;
*Gatos molhados em cima da mesa,
  *e pratos quebrados por Brigitte Bardot.

*Goteira púrpura no canto da sala...
  *Em cima da cama
*duendes passeiam.

*No céu há estrelas,
  *que não brilham a noite,
*onde a lua é tímida
  *e a maré é cheia.

Cosmopolitas



Meus passos cambaleavam 
Na sarjeta úmida de um lugar qualquer.
Enquanto moças riam com o vinho
a transbordar em seus corpos maleáveis,
aprisionadas em flertes românticos,
ao som inaudível de Ella Fitzgerald.

Pude ver no reflexo daqueles olhos castanhos,
uma legião infinita de anjos cosmopolitas,
a dançar tango com bruxas em plena fogueira,
que se materializaram nuas sob as pedras frias
de arquibancadas gregas feitas por mãos indígenas.
E aqueles anjos insaciáveis de concupiscência
tomaram-nas por deusas - Amantes concubinas!

Moças tais, que roubaram todo meu ar com
seus beijos ardentes – De forma mítica, como
serpentes distantes vindas do médio-oriente.
Quase sufocado, olhei a lua por detrás das estrelas,
e pude ver cabeças entrelaçadas: Hidras hidrogenadas!
Perdi-me em carícias francesas, entre as cortinas de fumaça
e indubitáveis belas moças com risos de princesas.

Também vi o medo na face da platéia estática,
quase tomada de arritmia cardíaca pelo desejo idêntico
de imergir naquele oceano seco de saliva salgada,
em línguas que não se falavam, porém, comunicavam
explicitamente os sentidos excitados na pele;
Sabores nunca antes provados.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Será?


Há sempre uma escolha a fazer, 
sempre um rumo a seguir, 
sempre um adeus para dar, 
sempre uma lágrima a escorrer, 
sempre um uma luz a se apagar.

Mas nem sempre faço o que escolho,
nem sempre percorro todo o caminho,
nem sempre minha despedida é um adeus.
Outras vezes, a lágrima é um sorriso tímido,
e a luz apagada, nem sempre, são trevas.

Só me decido quando não há certeza,
só sigo um caminho quando estou perdido,
só me despeço quando chego atrasado,
só choro quando o medo me faz rir,
só acendo as luzes quando a noite acaba.

A única escolha a ser feita não fiz,
o único caminho, na verdade, são dois...
Um adeus solitário é a véspera do enterro.
Uma lágrima que cai, nem sempre, toca o chão,
nem a luz que se acende ofusca o quarto inteiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Perdido em minha mente [Curta metragem]

Um pequeno filme sobre um poema intra-cefálico...

Déjà vu

Na incógnita avenida do eldorado moderno,
fotografei a inflação estóica da teia virtual 
a desabrochar em cabeças líricas ocidentais,
com seu comércio pirata em solo amazônico,
e discursos visionários para um povo faminto. 
Era como o doce que cai da mão da criança
sobre um formigueiro de idiossincráticos nomes
que vagavam na boemia noturna com peristálticas
freqüências sintonizadas no ato de auto-transcender. 

Vi Marias, Pedros, Josés, Antônios... 
Estáticos, com olhos petrificados em frente à TV.
Mimetismo subliminar decompondo seus globos 
oculares, eviscerados pela incapacidade de rebelar-se.
Em quanto isso, suas crianças ingênuas entravam
em rústicos cômodos de casas que não existiam,
eram apenas combinações binárias materializadas
na eletrostática da semântica de uma nova língua. 

Nas escolas haviam jovens de luto pela luta diária
contra suas antigas carcaças infantis, que breve
seriam enterradas no fundo de um oceano obscuro.
E ao fim do dia entravam em janelas que piscavam
em seus monitores, à busca de fugir da solidão noturna,
e compactuavam com as orgias cibernéticas em um
mundo de faz de conta.

Não havia calçadas nas ruas de pedra queimada,
onde os carros se consubstanciavam em locomotivas
desgovernadas no coração da cidade em dias chuvosos.
Então, sentei no banco da praça e esperei o vento escasso
secar-me na beira do rio, ouvindo canções de rua e sirenes 
policiais, que procuravam o escândalo daqueles que usavam
haxixe em quanto o sol sumia no horizonte metálico. 
Estava dormindo! Mas acordei do sonho anestesiado,
e tudo acontecera sem que ao menos um grão houvesse mudado.

A sombra da face rubra



Em cada palavra proferida,
há uma freqüência profética.
Para toda doença endêmica,
a gnose da suástica nórdica
é o sustento da cruz e espada
entre a multidão histérica.

Nasce um deus no sol poente:
Cataclismo econômico de estado.
A loucura austera da fome 
peregrina na mazela de Sade.
A nação é purificada pelo gás carbônico,
das câmaras feitas pelo homo criminalis,
que em suplícios platônicos,
arrancaram as vidas de esdrúxulas madres. 

A vingança estratificada 
de um Grendel frustrado,
sublima na guerra imperial
a moléstia infantil – Um ser violentado. 
Superiores de linhagem pura,
das vielas periféricas de Atlântida...
Vanglórias de deuses subterrâneos:
Gangrena de engano; varíola incurável. 

Crianças, mulheres – Cadáveres! 
Pilhas e pilhas em fossos abertos,
com cabelos raspados e olheiras profundas.
Filas intermináveis de bodes expiatórios,
com mãos calejadas por enterrar seus semelhantes:
Sangue do próprio sangue, em covas sem datas marcadas. 

Suspiro Satânico





Há mil respostas quando pergunta quem sou;
Aquilo que é já foi - opção nenhuma convém.
Enfático narcótico de amnésia futurística
a vagar na maré alcoólica de córregos anônimos,
com face caleidoscópica no véu da ciência oculta,
entre os pingos de chuva na lâmpada acesa. 

Não tenho casa que me enjaule no frio da madrugada,
apenas estradas libertinas de construções canônicas.
Meu sentinela dorme um sono límbico de lobisomem,
quase um assassino: Um terrorista maometano. 
A meu redor só vejo reféns, ingênuos puritanos,
Ativistas gays de belas igrejas, em estilo gregoriano. 

Estar sóbrio é uma maldição melancólica,
que subverte o além por coisas distônicas...
Entre o sequestro carnavalesco ou na 8ª sinfonia,
tomo um gole de vodca pura: princípio da alegria. 
Tenho riso sádico de complacente humor
sobre a vida moderna das castas na Índia.

Sou peregrino de sonhos e guilhotina de mentes,
parasita faminto, infecção cancerígena. 
Meu beijo tem gosto de velório e o sexo: enterro. 
Joguei no rio minha ultima pedra, meu ultimo riso,
minha última lágrima cósmica do cinturão de Órion. 
Estou suspenso por ser o que sou - não temo!
A estrela caída me guarda das trincheiras da vida.