A mídia é algo fascinante e, até determinado ponto, pode vir a ser uma coisa extremamente perigosa nas mãos de pessoas peritas na arte do controle. Obviamente, creio que isso já seja algo comentado aqui e ali por alguns despreocupados, ou mesmo, pretensiosos e, talvez, vagabundos, que tentam difundir alguma espécie de consciência coletiva sobre a tática por trás do aparelho midiático, como o caso da filósofa brasileira Márcia Tiburi, que trás à tona uma crítica histórico-filosófica a cerca do “olho de vidro” implantado na sociedade telespectadora, tão inescrupulosamente. Todavia, o que escrevo aqui ainda não chega a isso, porém, com finalidade semelhante. Por meio desse breve comentário, venho ao cerne desse pensamento, na tentativa de indicar através da logística e perícia contida na linguagem interpretativa de uma mente desocupada, como é, brevemente, o funcionamento do ser humano e suas relações com sues aparatos “tecno-ideológicos”.
No Brasil, encontra-se uma das maiores emissoras de televisão do mundo (Globo), quase do mesmo patamar de grandes emissoras renomadas, como o caso da BBC de Londres. Todavia, especificar detalhes históricos ou estatísticos não é o interesse desse breve texto, mas sim, explicitar a partir de uma análise sócio-estrutural o quão vulnerável é capaz de tornar uma sociedade, tal aparelho midiático: a TV. É comum surgir em outros meios de comunicação – refiro-me as redes sociais e, em especial o facebook –, uma espécie de crítica em relação aos realities shows que ganham cada vez mais telespectadores para tais emissoras. Um tanto superficial e corriqueira – assim vejo tais críticas -, todavia, já se percebe alguns telespectadores engatinharem no sentido de conhecer a forma com a qual esses tipos de programas atraem tanta atenção do público.
Sendo mais direto possível, quero aqui, esclarecer que estou me direcionando, justamente, ao programa mais comentado nos bares, cabeleireiros, lanchonetes e domicílios brasileiros: o Big Brother Brasil. Embora pareça algo já, de cara, manjado e tedioso de ser discutido, venho trazer a indagação quanto a sua funcionalidade prática na vida de seus telespectadores assíduos. Para isso, torna-se necessário aprofundar-se no campo da suspeita, tão bem trabalhado pelo Dr. Freud. Embora não seja um partidário da psicanálise, percebo nessa teoria que tanto se esforçou na direção de se auto-julgar como ciência natural, encontra-se ferramentas com precisões investigativas relevantes da linguagem e das relações histórico-culturais humanas, de grande valia para as ciências semióticas.
Sendo ainda mais direto ao assunto, vejo a necessidade de termos que entender a estratégia da mídia quanto a utilização e organização do entretenimento direcionado a determinado público alvo. O reality show, anteriormente mencionado, nada mais é que um jogo formado por integrantes denominados “anônimos” da sociedade, ou não. Porém, o que tem de fato importância em ressaltar esse aspecto, é o fato de que a estratégia básica desse tipo de programa, é, tão somente, colocar a relação do telespectador mais próxima de quem aparece na TV. Ou seja, não é mais um programa de ficção com personagens inalcançáveis, mas sim, “real”. Pessoas de diversas localidades; diversos estilos e/ou personalidades; pertencentes a diferentes grupos, etc. são essas as peças que formam esse jogo atraente aos olhos de quem vê. Com isso, dá-se a impressão de que seja algo produzido mais próximo do cotidiano dos telespectadores, sempre tomados pela vontade de alcançar a fama e o sucesso, tão valorizado e procurado nos padrões sociais da futilidade. Assim, o aparelho midiático toma a forma de um espelho que reflete, justamente, essa espécie de desejo coletivo pelo status – sendo esse, algo agora possível por meio da projeção individual do telespectador para com um personagem que tenha características em comum com aquilo que a maioria julga virtuoso e merecedor, que se encontre na trama para lhe representar como um avatar no mundo da telinha. Percebe-se, por conta da própria evolução da mídia, no sentido de seduzir quem vê a assistir sua programação para alcançar mais pontos no IBOPE, que isso foi algo, até certo ponto, genial por parte de quem teve a ideia. Pois veja, foi-se colocado em uma espécie de caixa de Skinner, pessoas comuns que passaram por uma seleção, na qual, previamente, alguém parece ter feito uma espécie de trama de ficção ou roteiro secreto. Dessa forma, os tais escolhidos nada mais são que meros atores que interpretam seus devidos papéis – mesmo que sem saber –, meramente se portando nessa caixa como são cotidianamente ou não. Analisemos o ponto concernente a isso, sendo o fato de que a surpresa e suspense esperado na casa, nada mais é que um tipo de controle muito refinado por parte de quem manuseia esse jogo de verdade: o diretor. E também vejo que seja necessário pra isso a ajuda de um bom roteirista e excelentes editores.
A identificação do público com determinado personagem se dará não por mero acaso, mas por conta de como os personagens seguirão seus determinados scripts e, por conseguinte, refletirá na verdadeira novela feita por meio da edição. E diga-se de passagem, novela é o que não falta nessa emissora. Apesar de não ser um telespectador, percebo que da última vez que assisti tal programa – cerca de quatro anos atrás – até então, não vejo que houve mudanças significativas quanto a dinâmica que ocorre nessa trama “natural” dos anônimos – ou como queiram chamar: escolhidos.
Tomar consciência de como funciona essas espécies de esquemas programáticos da mídia na TV para atrair maior quantidade de pessoas em frente a um aparelho ditatorial, que não mede esforços para garantir que o telespectador tenha o entretenimento - ou o circo de outras épocas -, torna-se necessário por conta da própria imundície que se acaba tornando a atenção direcionada a algo tão desnecessário e inútil para o alcance de uma transformação relevante quanto ao desenvolvimento de senso crítico mais apurado nessa sociedade. É até mesmo vergonhoso estar falando sobre algo tão infrutífero efêmero como é tal reality show. Porém, vejo que seja necessário jogar um pouco de ácido nos olhos desses telespectadores amantes do "faz de conta comercial" sem conteúdo algum. Percebo que é preciso não somente abrir os olhos de quem assisti, mas, jogar, sem pudor, a pimenta necessária em seus respectivos "olhos de vidro" até que cause o incômodo da autocrítica.
Charles Von Dorff.