sábado, 31 de dezembro de 2011

As estações




Nas quatro estações,
exuberantes nos tons,
transcorre nas cores
a energia dos dínamos,
que reverberam os sons
clivados nos tímpanos.  

Nenhuma luz pode penetrar
a membrana humana,
onde – estática – fecha
o mundo externo do ser;
Janela intercepta – clichê!

Misturam-se as cores
e vê-se que a ilusão
perceptiva der ver,
nada mais é que a fealdade
inerente ao nascer: Escuridão.

Prostituo-me com a luz negra,
densa igual fumaça espessa,
que em toda estação lateja,
ao findar-se o dia com o
sol em orgia, na qual,
as matilhas farejam.


Cães da humanidade

Perguntei-me, aflito,
o sabor da ferida aberta,
lambida pelo cão abandonado,
diante das correspondências
que, há tempos, estavam esquecidas.

Com indiferença cadavérica,
nem um uivo de rancor me dera.
Nada de novo fizera, afim de
acabar com sua mutilação destrutiva;
- Acaso não fedo com o medo
que tu me professa?

Percebi que aumentara
aquela choldra ação fausta.
E o cão continuou a lamber,
com inebriante constância e ranger,
a chaga que a mão de deus deixou,
sem antídoto capaz de fechar a
gangrena expelida com vigor.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Carne da minha carne




A carne malevolente
que estando crua e presa
dentre o hiato tordo,
sobrepujo entre os dentes,
condena todo meu corpo.

Mordo-a sem anticéptico
capaz de esterilizá-la
da insensatez tóxica
e o estímulo plutônico
mascarado com palavras.

Agrada-se com o gosto
sulfúrico do enxofre
e o bruxismo incessante.
É surda, muda – Cega.
Seduz-se facilmente.

Língua velada por versos...
Esconderijo de hostes infernais.
Aprisiona-te só aí dentro,
onde apodreces mais e mais.

Núcleo dúbio do ser ontológico;
Atalho torto para o limbo do tempo...
Destróis a forma, estética e som,
quando decides dar sobrevida
ao sopro frígido do vento.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Carta a um homicida

Este ícone único e prevalente,
o qual dar-se em volúpia
todo homem são – consciente,
foi implodido pela loucura.
Cidadão, que outrora se entregou
a verossímil farsa da humanidade,
agora desvela o orfismo oculto
que há de corroer essa inervação
paralítica da ardência selvagem.

Incognoscível fúria estercorária
que cresce a cada dia com a sintaxe
inflexível e corrupta da fealdade.
Apenas isso que sinto – Nada mais!
Foi o que restou desse corpo cremado
pela amargura pré-existente; prematura.

Tornei-me esse iconoclasta veemente
da inefável desgraça escondida
nos enigmas sujos que brotam na mente.
Sinto dor em cada vírgula errada;
Amante do próprio crime santificado.
Nessa vida assisto o crepúsculo calado
do exército de Péricles - Mortos,
a vagar vagarosamente para o abismo...
Hediondo ser vil - Vivípara libertinagem! 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Calabouço

Onde esqueci minhas chaves?
Todas as gavetas já estão reviradas,
e aqui estou olhando, estático, para
a poeira que recobre o infinito nada
no reflexo incestuoso do isqueiro.

Meus nervos pulsam com a dor
da enxaqueca crônica de todas
as noites que busco – em vão,
o sossego paralítico de viver;
- A fechadura permanece lacrada!

Trinquei a maçaneta de cristal
da excelsa porta acessível ao sonho.
Apenas desespero hermético,
por ver a cólica corroer a única
cópia que tenho dessas chaves.

Tenho que encontrá-las;
Não há outra opção existente.
Domestiquei meu hospedeiro,
durante sua relapsa procrastinação.
- Hebdômadas lunares!

Os ratos ainda estão no banheiro
roendo as sobras que me restam.
Litígio humano, cáustico – Lento!
Já estamos no outono capricorniano,
mas ainda permaneço aqui dentro.
Ludibrio a morte; cretinismo supremo. 

Tédio iminente


Minhas retinas ressecadas 
pela luz na janela da cena
imprópria em luxúria, de um
velho lixeiro a fumar charuto
apaziguado em sua amargura,
trincaram-se inteiras. 


Meus umbrais catequizados 
pelo bater de asas do pássaro cinza,
envelhece a cada manhã - Lamento!
Neurotoxina instantânea liberta;
Víbora rasteja na mente. Limítrofe.
Sensação pura - Êxtase!


Como não ouvir a sinfonia?
Escuridão em cada nota menor,
a vibrar nas cordas metálicas 
sobre o mais esplêndido ébano. 
Loucura de Mozart nos intervalos;
Jovens odaliscas enlouquecendo.


Entendo a inércia como inferioridade
da forma branda no tédio do tempo.
E assim me encontro: sempre nos cantos...
Hipotenusa cáustica na eclipse de cada passo.
Pegadas soltas na flor de lótus;
Meus passos - Meu espaço!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Murmúrio de uma mosca

Percorro de velório em velório
a buscar sementes prestes ao enterro.
Os homens repudiam meu Ballet insano,
peristáltico na sintonia do gemido alheio.
Gosto do sabor amargo da saliva dos mortos,
e ouvir as lamúrias que perdura a madrugada:
Por que você, meu filho?! Era tão cheio de vida.

Pouso nas narinas para ver poeira e bactérias.
- Mas que prato saboroso, é esse corpo humano!
Semente de ódio e destruição plantada na terra;
Que na vida é perseguido, mas também, sabe ser fera.
Que hoje dá à luz a vida e amanhã se espalha como ameba.
Homem do campo, da cidade, dos edifícios, das vitrines...
Meu zunir lhe causa náusea quando vôo mais baixo.

Sempre procuras um veneno para contaminar meu ar.
É inútil tentar me vencer! Da sopa, comi todas as letras.
Das células sugo todo o plasma, membranas – Mielina.
É engraçado ver-lhes afogar na própria soberba barata,
lamber o catarro que escorre, regurgitar sobre suas crias...
Meu bater de asas é sua nostalgia pela forma da feto-ideia,
onde descansavas no útero sempre a se encolher; escondido.

Ah! Estou indo para mais um enterro naquele último cemitério.
Lugar de plantar crianças, idosos, adultos, porém, não os poetas.
- Raça em extinção é essa! Meta-fórmica espécie canibal austera.
Pele sem cor, múltiplas formas; caracterológico de paz e guerra...
Onde eles se escondem? Quero sobremesa poética na minha fantasia.
Sugar os sonhos inalcançáveis dessas crianças crescidas;
- Comer, parte a parte, as falanges; os nervos; as idéias!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Monólogo Esquecido

Não sou um poeta morto...
Sou o poeta enterrado vivo,
agonizando; claustrofóbico.
Cortei minha própria língua
no último bonde que peguei.

No meu sepulcro comi minha
carne junto com os vermes...
- Insaciáveis e imundos como eu.
Lentamente perdi minhas funções
motoras, enquanto sufocava no
gás que eu mesmo produzia.

Não senti dor ao ver as unhas caírem,
as mãos murcharem com absinto;
Não pude gritar - Sofri lentamente...
Debaixo da terra estive apenas comigo.

- Quem diria que os vermes que desprezava,
seriam meus predadores mais vorazes?

O nada cortou minha cabeça sem aviso prévio.
Agora sou uma sombra que vaga, que traz medo.
Já não sou mais poeta, nem ao menos escriba.
Está vendo aquele livro perdido?
- Esse foi o meu eu. 

Filho Bastardo

Deixa as tuas trevas
tornarem-se um feto...
Depois, alimente-o;


Dê a ele as sustâncias
que necessita para desenvolver-se;
Virar criança, adulto...

Deixa ele ser um rebelde.
Que se rebela contra criador,
que traz a náusea; O ferimento;
O esquecer - Apague a luz e sofra!

Tormento

Toma a pena e escrevas
o tormento sem sentir pena de si.
Sinta o bafo podre da morte
que lhe sonda sem descanso.
Escrevas! É uma ordem - Inspire-se!

Deseja fugir da lama vindoura?
Acender um cigarro solitário?
Porém, agora, obedeça-me:
Escreve tuas trevas nesse
papiro envelhecido, sujo.

Escrevas sobre teu câncer;
Sobre a dor do teu fígado;
Sobre a mágoa indigesta;
Sobre a fome da alma.
Escreva com teu sangue.

O que é feio e repugnante,
quase sempre é o que salva.
Poesia mórbida; poesia vaga...
Demoníaca; possessa - Poesia!
Aponte a arma para tuas têmporas;
Bala explosiva... Poesia macabra.

Carta Ensanguentada

[Para minha deusa onírica]

A melodia melancólica

de cada dia e cada hora,
toca no chiado do rádio.
Tento um carinho leviano,
quando apresento um banquete
orquestrado sobre a cama;
Mas tu não aceitas - Por quê?

Bato a porta com amargura
só para ter um fio solto de atenção,
porém, não olhas e, tão pouco,
entendes a dor do esquecimento.
Refrigera minha chama todas as noites
a mostrar seu corpo nu, petrificado,
entre os lençóis da cama de teus pais.

O cheiro do bálsamo e mirra
nessa pele quase congelada,
em mim penetra como heroína injetada.
Cura instantânea – Mas como dói!
Rasga em meu peito a tua afonia;
Responda-me Samantha – Por quê?

Não durmas por toda eternidade;
Estou aqui ao seu lado, em pranto.
Amaldiçoe-me com o afago de tuas mãos.
Mãos pequenas, sem vida alguma...
Não vá sem mim – Não vá!

Apenas tu me amaste verdadeiramente,
em meio a todo o desastre em que nasci.
Somente em teu colo encontrei refúgio;
E como preciso desse carinho tolo...
- Apenas o teu carinho de menina levada.
Unicamente você Samantha – Por quê?

Jamais amou outro além de mim...
Um amor doentio, ciumento e imundo.
O verdadeiro amor pelo meu escárnio;
Sempre apressada a me confrontar.
Tuas cartas empilhadas na mala
dá forma a um livro sagrado que
leio todas as noites. Para onde fostes?
Responda-me...
- Por quê?

Agonia

A gênese tóxica das idéias 
parasitárias embutidas na epiglote
daquele cidadão revolucionário,
estourava tímpanos alheios a seu
bel prazer – Murmúrio coagulado.

Sonhava com um mundo mudado,
parecido com o ângulo torto do porta-retrato.
Miríade de sonhos criptografados
por um espírito soterrado na areia movediça,
com a certeza de ser livre no mundo fechado:
- Tardígrado em introspecção contínua.

Berrava nos púlpitos públicos e teatros,
o exílio mental do Oblivion midiático,
a luz das pontuações de William Blake
entre as palavras mudas do livro fechado.
Sempre com sangue nos olhos de espelho,
com a maquiagem borrada na fronte.

Aspereza à flor da pele construía seu
enigma macabro e pantanoso no corpo inóspito.
Por vezes, sentiu-se aliviado com os sons
Imperceptíveis do quarto em silêncio.
O choro ignóbil, efêmero, anuncia o que é trágico:
Suicídio! - Um pentagrama desenhado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Manjar das dores

___Aos meus 'eus' futuros, 
_____ofereço um prato saboroso 
___com todas as doenças venéreas humanas,
_____misturadas com sofrimento, angústia,
___desespero, tragédia, desastre, chacina,
_____tortura, repúdio, solidão, esquecimento,
___mágoa, ódio, traição, lascívia, corrupção,
_____contravenção e timidez.

:::::Que esses contraiam
:::::os vírus contidos na boca da fome e sofram;
::::: - Que EU sofra e goze!

**Que meu gozo percorra o mundo;
**que esse mundo se acabe em fezes;
**que essas fezes sejam as minhas.
**Que eu degluta minha própria carne,
**onde quer minha sombra vague.
**Onde o gozo antigo espalhe
**a sentença da destruição.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Para um jovem fumante

Necessito de fumaça,
sem forma alguma instituída. 
Isso! Apenas fumaça. 
Espírito que anda
na atmosfera hominídea.
Densa, macabra – excrescência.

Obrigado! Não quero gosto.
Apenas fumaça e seu cheiro
arqueada no crânio vazio.
Nuvem grotesca e instável;
Pressinto o câncer tardio.

Enche-me com o teu nada
solúvel onde é proibido.
Ofereço meu órgão doente e
imprestável... Lixo escondido.
Fumaça que vingas o fogo,
das tuas entranhas, dê-me um filho.

Nas noites envolva meu corpo,
quando estiver sóbrio ou caído.
Tua voz é aquela tosse seca;
Quase morro se não te degusto.
A traqueia, purulenta, disseca
- Tua ausência provoca o arrepio! 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Anedotas

Não vi os poros pálidos
da pedra de Drummond.
Tão pouco, o escarro
na boca de Augusto.

Na escada, vi o vômito de Rimbaud
próximo à fotografia esquecida,
tirada em dezembro passado.
Folheei páginas soltas no diário
de Carroll - Tolice!

Visitei Neruda nas praias do Mediterrâneo
à procura de Baudelaire. Foi inútil.
Coisa fútil de cidadão Tomé.

Esses dias sonhei com Clarice
a vagar num penhasco à beira da morte...
Então, senti o vazio tolo de Leminski - Sorte.
Por favor, conhaque! Mais uma dose.

Somente só

Solidão é marca de grife.
Edredom de linho; Aquece.
Solidão, pensamento flutuante
- Ninguém escapa, apenas desvia.

Solidão de mãos inquietas...
Solidão singela amiga.
Solidão de múltiplas faces:
Romances, desastres - Só!
Solidão até o fim da vida.

Solidão, a fome da alma.
Apenas eu - somente!
Aprendi a caminhar sozinho...
Solidão há tempos esquecida.

Solidão companheira e fiel.
- Caramujo gosmento, amável.
Torre de babel decaída.
Divina folha obituária;
Solidão, furúnculo homicida.