- Deus!
Essa foi a última palavra que ouvi, antes de puxar o gatilho de minha colt 45 e perfurar as têmporas desse crânio que, há tempos, sofre o aumento da pressão intra-cefálica, ao passo, que percebo a inutilidade do tempo nessa vida fútil. No oitavo andar do prédio Constantine Oblívion, no dia vinte e sete do mês passado, que finalmente entendi o que é estar diante dos olhos da morte. Não sei o motivo certo de ter ouvido tal ignóbil palavra naquele momento, mas isso me causou um espanto indizível. Escrevo isso com mãos trêmulas e aflição máxima, nessa fria madrugada de janeiro.
Ás nove horas da noite já não havia qualquer alma penada a vagar nos corredores do prédio. Lembro-me de entrar em estado de choque ao ler o resultado da bateria de exames feitos por recomendação médica, devido a suspeita de algum tipo de infecção grave no pulmão, por conta do aparecimento de uma tosse violenta. Encontrei aquele envelope jogado no tapete de entrada do apartamento, como uma correspondência qualquer, mais uma cobrança em meia a tantas outras que se acumulam na gaveta da escrivaninha surrada que tenho na sala. Porém, vi o dito cujo e atentei-me de imediato, quando percebi que se tratara de algo realmente importante, acredito, para a maioria dos humanos que conheço: a saúde. Um tanto amassado, confesso, porém, claro e visível estava lá o selo do médico mexicano Edgar Mendes – É incrível como a curiosidade nesses momentos se prolifera como moscas sobre um cadáver – tratei de juntar do chão, aquela possível sentença, com a ansiedade de acabar logo com o sofrimento forçado. Abri, olhei aqueles termos e mais termos técnicos, quase uma forma de se criar suspense, então, no final de toda abobrinha ali contida, li o que, nitidamente, pareceu-me ser o start de um cronômetro a marcar o fim da minha existência:
As seguintes avaliações dos exames de sangue, urina e biópsia, indicam uma alta incidência de células cancerígenas no pulmão esquerdo, podendo se alastrar rapidamente para outros órgãos em um curto espaço de tempo. O tratamento quimioterápico é indicado com a maior urgência possível.
Edgar C. Mendes
Naquele momento apavorei-me! Acabara de ler uma sentença fria de morte. Uma tontura jamais sentida antes, tomou conta de mim por alguns segundos; pensei não estar mais respirando. Tudo existente parecia imprestável diante daquelas palavras. Jamais pensei que tão cedo isso aconteceria comigo, mesmo tendo diminuído os cigarros e exageros. Olhei para a janela do apartamento, agarrei-me a uma garrafa de uísque doze anos e comecei a beber no gargalo como se fosse suco de groselha, ou algo do tipo. Por dentro, meu ódio ardia em chamas nunca antes acesas. Misturavam-se meus sentimentos às lembranças de forma descontrolada e insana – Meu mundo caiu!
Sempre tratei meu corpo como uma roupa qualquer, sem importância alguma. Porém, aquela notícia que recebi sozinho em silencio fez-me ter noção, de fato, da fragilidade a qual acomete essa carcaça que chamamos de corpo. Tomei mais um gole seco daquele uísque e, observei calado, os carros a transitarem na escuridão, os pássaros se encolherem em cima dos fios da rede elétrica, enquanto um grupo de jovens baderneiros passavam do outro lado da rua; pareciam estar gozando da minha cara – Isso era nítido, sei disso! Gargalhavam em uma zombaria frenética, quase um mantra. Algumas coisas se quebram na vida, as quais, jamais poderão ser remendadas novamente. Talvez, sejam essas coisas que, realmente, nos fazem perceber o que somos e porque somos. Minha felicidade barata, com a qual cheguei ao apartamento naquele dia, evaporou-se num instante. Agora posso entender a pressão de uma bomba estourada nas mãos de um soldado inexperiente no campo de batalha. Fui sugado pela agonia instantânea; coisa essa causadora de toda espécie de sofrimento em nossa existência nessa terra miserável. Não conseguia parar de pensar em toda responsabilidade que é viver, sustentar-se em meio a outros seres semelhantes. Confesso que me senti ser novamente uma criança desamparada, a chorar por um abraço aconchegante de mãe. Meu dia havia sido o melhor que tivera até então. Incrivelmente, durante todo aquele dia, vivi a emoção de saber que seria pai pela primeira vez. Passei horas a planejar inúmeras coisas – Fúteis eu sei –, mas que fazem ser o que cada ser humano é: uma equação enferrujada em busca da ilusão. Caroline, minha esposa, estava de férias em Lisboa, quando me informou da notícia. Recebi sua ligação às quatro da tarde, durante meu expediente na loja de automóveis, onde sou gerente há dois anos. Pude sentir a sensação de estar realizado ao ouvir que seria pai. Aquilo pôde, por um instante, nos unir novamente. Caroline e eu já não estávamos tão apaixonados como éramos quando nos conhecemos na beira de uma praia qualquer do sul, num domingo ocioso, tipicamente propício ao tédio. Ela já estava, exatamente, um mês em Portugal, a passar as férias na casa de uma das irmãs que trabalha em um vilarejo afastado, quando certo desconforto durante a noite, a fez sentir abrupta náusea e ânsia de vomito. Desconfiou de algo errado – Mulheres, seres frágeis diante do incômodo – Assim, fez um teste de gravidez barato de farmácia. E no dia seguinte, após tal ocorrido, de imediato, tratou de anunciar a mim tamanha notícia – Não é possível! Parece isso, ser um complô contra minha sanidade – Nunca meus funcionários me viram tão sorridente e gentil durante esses anos de trabalho. Ser pai mudou completamente meu conceito de vida. Contudo, enquanto me afogava na garrafa de uísque, pensei em tudo isso por um segundo. Meu castelo havia sido construído na beira da praia, sobre montes de areia – Foi o que pensei após ler novamente os exames. Vieram-me, também, pensamentos sórdidos pela sensação de ter sido amaldiçoado por alguma bruxaria ou algo do tipo. Coisas estúpidas como essa, nos vêm à mente, mesmo com as inúmeras armaduras que sempre tentamos criar contra nossos medos. Nunca fui religioso e, jamais, tive pavor de intuições tão patéticas como essas. Isso era joguinho de criança para minha racionalidade intransigente. Mas a razão bate assas ao ouvir o eco da morte tão explicitamente – E foi exatamente isso que ocorreu!
A garrafa já estava pela metade e, nem lembro quantos cigarros fumei durante aqueles eternos dez minutos à beira da janela do apartamento. Comecei a sentir meu peito arder mais e mais... Um ardor infernal – Acredite! Olhei meu gato, que tanto me ensinou a arte do silêncio nas madrugadas intermináveis, nas quais, fazia e refazia os cálculos das contas, dos empréstimos. Minha sala era o prolongamento do escritório da empresa, em que trabalhava. Esquadrinhei como jamais havia feito, os olhos daquele gato que parecia estar petrificado sobre o carpete da sala, com as poucas luzes que permaneciam acesas durante a noite. De fato, as luzes sempre causaram incômodo às minhas retinas. É cômico e trágico, ao mesmo tempo, lembrar que aquele era o sétimo gato que tivera em minha vida. Seria esse um dos códigos que abrira o caminho para meu fim, sem que eu percebesse? Escutei uma gargalhada dentro do apartamento que foi aumentando, aumentando enquanto eu vegetava sobre minha poltrona, já com a garrafa de uísque vazia nas mãos fraquejadas. Todo meu corpo arrepiou de imediato! Nas minhas narinas, senti um cheiro estranho de sangue fresco, que escorreu sobre meus lábios, queixo, até alcançar o colarinho da camisa. Toquei aquele sangue com as pontas dos dedos... Imaginei meu velório, as pessoas me praguejando, minha esposa sorrindo com seu amante do lado. Sempre suspeitei de sua ternura e bondade excessiva. Tudo estava perfeitamente bom para ela – Convenci-me naquele jogo durante anos – Porém, ainda continuara a escorrer o sangue desbotado das minhas narinas. Levantei-me já desfalecido. Caminhei até a cozinha, limpei-me com um guardanapo sujo e amarrotado; a tontura do uísque já me abatia com certo cambalear descontrolado. Acaso minha solidão e, somente ela, foi minha única companheira?
Tentei convencer-me de que estava a exagerar, ou mesmo, em estado de alucinação sem precedente. Afinal de contas, ainda não sentia a angústia da morte, nem mesmo, suas dores corrosivas que tanto me falavam os poetas, sepultados nos malditos livros de minha biblioteca. Durante anos, regozijei-me do escárnio de tais seres imprestáveis e vagabundos, representantes da perversão humana contida na libertinagem de seus passos em cada página dos livros condenados que lia. Mas o rancor e desespero, não me deram descanso, nem notícia de trégua, diante da tentativa daquela intelectualização barata que eu tentara para amenizar meu sofrimento. Pelo contrário, esse ato inútil só fez alimentar mais tal sensação. Um descontrole maior desencadeou em mim um nojo implacável por minha condição humana, débil e imprestável nessa deplorável forma a qual persisto; nesse cárcere cotidiano. Nada que eu fizera durante todos os meus quarenta e três anos, era, na sua essência, algo relativamente significativo para poder alcançar a eternidade nesse mundo. Nenhum abraço sincero, nenhuma transa exagerada, nenhum sonho realizado. Sou o mais imprestável dentre todos os seres!
Ainda estava lá, o gato de pedra, que nunca brincava, ou miava, e nem subia nos telhados como todos os outros de sua espécie urbana. Encarava-me como um oráculo possuidor de todas as respostas – Saberia, então, livrar-me de tal desespero? Mas, na verdade, acredito que era um demônio das profundezas, encarregado de marcar território com sua urina sulfúrica, sendo essa, o prenúncio da foice afiada da morte, tão desejosa de roubar o último fôlego dos seres mortais. Estático e frio, esse demônio continuara a hipnotizar-me enquanto lambia sua pata anterior direita e, com um olhar fixo nos meus – Quase rindo da miséria que eu passava –, permanecera indiferente à minha sentença. Preguiça era o que não lhe faltava; agora entendo a raiz desse protesto contra minha escravidão nos impostos do meu trabalho interminável.
Quando tudo está ruim, sempre existe como ficar pior – E descobri isso com a própria experiência. O céu se fechou com nuvens carregadas e trovões que rasgavam os ventos de uma tempestade que se formara rapidamente. Fechei a janela, pois o temporal mais parecia um furacão indomável. Acendi um cigarro e fiquei a andar de um lado para o outro do apartamento, sem saber o que fazer... Já era uma da manhã e meu sono aparentava já ter sido engolido pela insônia intensa. Coloquei um CD qualquer para tocar no aparelho de som, na esperança de ainda encontrar o sono perdido. Mas a primeira música que tocara, dilatou, instantaneamente, minha pupila após um reflexo, resultante da percepção de sentir minha pulsação cardíaca estar a bater mais lentamente diante da sinfonia de Vivaldi, que pairava no ar da sala. Uma lágrima solitária escorreu desses olhos cansados, enquanto via os respingos de chuva na vidraça: embaçada e disforme.
Fugir daquele estado mental era o que precisava. Sem mais delongas, vesti minha capa de chuva, e decidi ir a qualquer bar que encontrasse na rua. Precisava encher a cara para fugir da realidade cruel que me era imposta pelo câncer maldito. Os trovões aumentaram com a freqüência do som do violino enlouquecido que escutara. Ao girar a maçaneta da porta, um black-out inesperado tomou conta de toda a rua – Talvez, toda a cidade – e um vento, que não sei de onde viera, soprou subitamente em meu rosto de forma sutil e afável. A gargalhada novamente viera me atormentar... Tive que fugir, mesmo na escuridão do prédio vazio – A morte já ansiava meu último beijo, naquela solidão esquizofrênica.
Corri desesperado em direção as escadas no fim do corredor que, parecia ser interminável. Meu respirar ficava mais sufocado a cada passo dado; meus joelhos se enrijeciam, quase atrofiando – Não posso parar! Tirei força nem sei de onde, mas consegui chegar às escadas, a correr como um louco fugitivo do sanatório. Enfim, estava na calçada do prédio, onde só se podia ver por meio dos clarões das explosões no céu. A chuva começava a dar sinais de que logo acabaria. Segui para o lado esquerdo da rua, direção essa, onde suspeitei haver algum boteco imundo aberto. De fato, três quadras a frente, havia um bar caindo os pedaços; reduto de vagabundos e alcoólatras perdidos. Caminhei dentre as poças de água nas calçadas, na escuridão absoluta da rua, a olhar para os pássaros molhados nos fios dos postes, que me assistiam com cada movimento ocular sincronizado entre todos eles – Acaso seriam esses, os olhos da morte? Meu desespero era um espetáculo para aqueles abutres que enfeitavam a escuridão.
Cinqüenta metros antes de chegar ao boteco, as luzes dos postes se acederam, os semáforos nas esquinas retomam seu brilho e a chuva cessa totalmente. Em meio a tal desregramento dos meus sentidos, avistei uma prostituta que saiu de um beco asqueroso, e veio a meu encontro oferecer um programa – Essa é uma boa ideia – pensei, em meio a toda aquela turbulência.
- Está perdido, meu bem?
- Apenas a fugir. Respondi-lhe.
- Louise... Muito prazer! E como posso lhe chamar, caro fugitivo?
- Meu nome não importa. Só quero esquecer quem sou por um instante.
- Talvez eu possa lhe ajudar com isso.
- Aceitaria tomar um drinque?
- Claro!
Aquela prostituta, com belas pernas a mostra e seios fabulosos, conseguira roubar um minuto de minha agonia. Falava descontroladamente... Tinha belos olhos verdes e lábios carnudos, avermelhados e sedutores – Fazia sexo oral como ninguém – de certo, imaginei. Sua risada irritante lembrava um porco selvagem. Mas era isso que eu precisava: uma distração corriqueira, banal. Entramos naquele boteco imundo, com cheiro de mijo pelas paredes com pintura mofada, poucas lâmpadas inteiras. Na porta de entrada, lá estava um miserável jogando ao léu, desacordado.
- Não ligue pra isso! Esse aí só acordará amanhã. Disse Louise.
- Vejo que conhece o lugar como ninguém...
- Aqui é meu setor. Por isso, devo conhecer esses imprestáveis. Sempre têm algum trocado para ser roubado.
- Além de prostituta é ladra?
- Não. Apenas uma sobrevivente nessa selva, querido...
- Por favor! Duas doses de tequila – Discretamente pedi ao barman.
Conversei com Louise até as três da madrugada. Após tantas doses de tequila, que nem lembro ao certo o número exato, pude sentir, finalmente, certo alívio e um breve esquecimento da situação que me trouxera a aquele lugar decadente – Livrei-me, naquele momento, da dor que pressionava meu crânio contra a parede! Estava entorpecido pela embriaguez necessária numa vida vazia, a fugir de pensamentos destrutivos, da forma que fosse possível. Ainda no boteco, enquanto Louise gargalhava com os outros bêbados e indigentes, fixei-me em seu decote exuberante; seus seios pareciam saltar para fora do vestido preto. Fui nitidamente canalha com o olhar, a demonstrar certo desejo insaciável de mergulhar entre aqueles melões empinados e suculentos.
- Acaso encontrou alguma coisa em meu decote, senhor perdido?
- Encontrei uma ponte para o inferno! De certo, essa é uma bela ponte...
- Então, creio que já deva ser um condenado.
- Acredito que sim. Quer mostrar-me o inferno?
- Desejo isso desde o momento que lhe vi.
Seguimos rumo a meu apartamento sob um ar úmido, a ouvir os gritos de gatos que se dilaceravam nos becos entre os prédios antigos. Vi próximo a um poste de luz, certo senhor que tocava uma música semelhante a um flamenco - Um tango talvez - a dedilhar seu violão como nenhum outro. Louise cantava alto enquanto caminhava e bebia outra dose de tequila, agarrada a meu braço esquerdo e, com sua mão boba, acariciava meu pau já sólido nas calças de linho. O cheiro insuportável do esgoto na rua, do lixo molhado, das fezes dos cães no meio fio, fizeram com que aquele estado maníaco, que outrora me encontrava, retornasse como um balde de água fria. Não podia deixar isso acontecer. Beijei Louise de surpresa com todo o sentimento humano que me restava, almejando ludibriar mais uma vez tal sensação monstruosa e horrível. Foi incrível aquele beijo. Dezoito segundos sem mundo, sem medo, sem culpa; senti Louise suspirar como uma virgem imaculada.
Finalmente estávamos subindo as escadas do prédio, com beijos desesperados, ardentes. Já nem mais lembrava o andar do apartamento, tamanha paixão com a qual nos beijávamos entre as carícias selvagens. Transamos ali mesmo, nas escadas, bêbados e nus sem escrúpulo algum; parecíamos deuses sobre as nuvens, imortais naquele momento único – Nosso orgasmo acordou o prédio inteiro. Ainda nua Louise tomou minhas calças, jogadas no canto, e correu em direção a meu apartamento, com as chaves em mãos. Sorri ao ver sua atitude tola, infantil... Acabamos em cima da cama, afoitos pelo prazer desvairado, um pelo outro. Transamos como animais em extinção, como se aquela fosse nossa última transa, o último suspiro.
No dia seguinte, acordei nu, deitado no sofá com uma dor de cabeça infernal. Meus olhos doíam com a luz vinda da janela aberta. Chamei por Louise, porém, só ouvi o tic tac do relógio e o som da cortina, balançada pelo vento. Fiquei debaixo do chuveiro por meia hora, paralisado igual a defunto no caixão. Durante o banho, escutei o telefone tocar. Caminho para atender a ligação, mas, inesperadamente, o toque pára poucos passos antes de eu chegar. Na mesa do telefone, debaixo da agenda de números, vi um papel – Lembrei-me dos exames – era um guardanapo com a marca de um beijo. Nada estava escrito. Apenas a impressão dos lábios daquela prostituta que salvou minha noite melancólica e mostrou-me os prazeres mais obscuros.
O telefone toca novamente. Desta vez apresso-me, e atendo imediatamente:
- Alô?!
- Onde esteve que não me atendes faz uma semana?
- O quê? Não entendo...
- Não entende? Eu que não entendo.
- Caroline? Meu bem...
- Não venha com essa conversa de meu bem. Deve ter sumido com sua amante, ou qualquer vagabunda que abra as pernas pra você.
- Caroline, escute-me...
- Adeus! Seu imprestável.
Não entendi o que houve de fato, fiquei espantado com a ligação. Minha cabeça, que já doía, passou a pulsar mais forte e ficar mais pesada ainda. Acaso, o que queria dizer Caroline com seu comentário? Ontem mesmo falei com ela várias vezes durante o dia. De súbito, na janela escancarada, pousou uma coruja enorme, robusta, alva como nuvens resplandecentes. Olhou em minha direção e disse: - Adeus, homem inútil! Logo em seguida, senti meu pulmão rasgar como um papel qualquer, frágil. A coruja bateu asas e desapareceu num instante, sem deixar pista alguma de para onde partira. Então, comecei a tossir como um cachorro velho, incontrolavelmente. Vi respingos de sangue no carpete, olhei para minhas mãos e, espantei-me com o sangue que saíra devido aquela tosse desumana. Uma tontura me sobreveio, não pude me sustentar e caí desmaiado no chão, a agonizar sozinho, sem poder pedir ajuda. Acordei com o maldito gato a lamber meu rosto com sua língua áspera e seca – Língua muda demoníaca! Levantei-me já sóbrio, mas ainda agonizante e perdido, sem ter ideia do que ocorrera. Tenho que ligar para o Dr. Edgar! Peguei a agenda sobre a mesa e procurei o número da clínica onde, o mesmo, prestava seus serviços – Inútil! Meus olhos quase saltaram pra fora quando olhei aquela agenda toda em branco, sem qualquer número telefônico ou anotação. Não pode ser!
Saí desesperado do apartamento a caminho da clínica onde o Dr. Edgar, certamente, estaria para que eu pudesse esclarecer o que estava ocorrendo. Cheguei à rua, já sufocado, e senti um ar rarefeito e denso. Caminhei na calçada inóspita, porém, não vi nenhuma loja aberta, nenhum carro estacionado, nenhum pássaro no céu metálico... Não havia brisa, nem sol ou lua. Um silêncio sem vida tomou conta de toda a cidade – Somente eu existia! O que isso significa? Senti uma sede desidratante sob um calor que explodia meus poros, unhas e cabelos. Meus lábios racharam-se como o rio que seca no verão mais escaldante e agreste. Abaixei-me e, com uma das mãos, peguei a água que escorria no meio fio da rua para matar minha sede lastimável. Respirei ofegante, totalmente espantado em meio àquele deserto de pedras angulares habitado apenas por mim naquele momento. Avistei no oeste distante, uma cabine telefônica em frente à padaria, na qual, costumava fazer meu desjejum diário. Quando escutei um miado que ecoou como um rugido feroz nos meus tímpanos gastos; o maldito gato me olhava da janela do apartamento - Estático como sempre. Corri em direção a cabine telefônica sem pestanejar, com os olhos ressequidos pelo vento sem umidade, quase enlouquecido, por tamanho desespero que me viera durante esse instante macabro. A cabine estava lacrada, sem acesso algum – Maldição!
Arrombei a porta da padaria, pois me viera tal fome animalesca que seria capaz de comer até o dinheiro do caixa. Contudo, não havia pão, nem dinheiro nem nada. Apenas móveis extremamente organizados em seu devido lugar e uma TV na parede, ligada, onde pude me ver preso dentro de um cômodo vazio, escuro. Sobre uma das mesas, encontrei o mesmo guardanapo com a marca de um beijo que aquela prostituta deixara debaixo da agenda sem números – Guardei o maldito papel. Minhas entranhas se contorciam, sangravam com a fome brutal que aumentara sem mais nem menos. Andei por toda cidade a procurar algum cidadão vivo que pudesse tirar a angústia desse suplício inimaginável. Porém, ninguém mais havia; apenas os caramujos nas latas de lixo foi o que encontrei em tal busca ensandecida por qualquer semelhante a mim.
Não havia alvorada nem anoitecer, ou mesmo o sono capaz de tirar-me daquele lugar vazio. Quando já havia perdido as esperanças, sentado em um banco de uma praça no centro da cidade, depois de seis dias contínuos nesse vazio, passou por mim um velho qualquer com roupas esfarrapadas, uma bengala em mãos e uma venda nos olhos. Gritei de alegria, já derramando minhas últimas lágrimas, mas o velho não me ouviu, ou se quer percebeu minha presença. Parecia um louco, metido a profeta com um grande cartaz no peito que dizia apenas uma frase: Você existe? Um choque percorreu todo meu sangue quando li a placa maldita. Procurei minha carteira em todos os bolsos; revirei-me ao avesso até que, finalmente, a encontrei. Todavia, a mesma, estava vazia, sem dinheiro, sem cartão de crédito... Apenas minha identidade intacta permanecia. Mas não havia nome, endereço, idade ou qualquer outro registro sobre mim perante o mundo. Enlouqueci de vez ao ver aquilo – Desisto de viver!
Saí em prantos rumo a meu velho apartamento, com todas as forças que ainda me restavam. Entrei quase morto, arrastando-me diante do gato maldito que me assistia sem proferir qualquer som capaz de salvar-me daquela solidão esmagadora, a definhar em meio o nada que me devorava lentamente sobre o peso do meu próprio corpo – Não agüento mais tal penitencia! Assim, gritei para as quatro paredes, para a estante sem livros, para as molduras sem retratos, para o espelho sem meu reflexo. E ainda a me arrastar, cheguei até o quarto onde dormia. Lá já não havia móveis, janelas ou luz alguma, se não, a de uma lamparina a se apagar diante a falta de oxigênio naquela cela, que se tornara meu quarto. Encontrei a pistola, presente de aniversário dado por Caroline – Uma bela peça de coleção –, que estava jogada, pretensiosamente, no chão, alumiada pela lamparina e, sem pensar mais nada, perfurei meu crânio com a bala de prata - o único jeito capaz de acabar com toda dor, lástima e vegetação que passara durante aquela única semana dentro de um vazio incognoscível; sugador de alma.
Acordei! Foi esse o grito que saíra da boca desse ser maldito dentre os homens, depois de ter ouvido o disparo ensurdecedor da arma. Porém, não foi exatamente isso que ocorreu. Consegui sair do desespero, da agonia... Mas acabei tornando-me uma sombra condenada a sofrer, não no inferno por toda eternidade, mas na cópia imprestável da realidade que o humano pensa existir, onde nunca mais tornarei a ver a luz do novo dia. Não sinto fome, sede, nem dor, ou náusea – Quem dera poder sentir ao menos isso. Minhas mãos tremem ao escrever isso; tremem por agora saber que não lembro meu nome, nem sei os traços do meu rosto ou minha altura – Será que existi? Só escrevo por meio das mãos de sonâmbulos e loucos – Justamente os segregados desse mundo perverso. Tenho um beijo guardado no bolso e uma pena na mão. E o pior de tudo: jamais lembrarei meu nome por toda a eternidade... Até que outro ser como eu, atenda a meu suplício e decifre quem sou.
Charles Von Dorff, 24 de janeiro de 2012.