sábado, 31 de dezembro de 2011

As estações




Nas quatro estações,
exuberantes nos tons,
transcorre nas cores
a energia dos dínamos,
que reverberam os sons
clivados nos tímpanos.  

Nenhuma luz pode penetrar
a membrana humana,
onde – estática – fecha
o mundo externo do ser;
Janela intercepta – clichê!

Misturam-se as cores
e vê-se que a ilusão
perceptiva der ver,
nada mais é que a fealdade
inerente ao nascer: Escuridão.

Prostituo-me com a luz negra,
densa igual fumaça espessa,
que em toda estação lateja,
ao findar-se o dia com o
sol em orgia, na qual,
as matilhas farejam.


Cães da humanidade

Perguntei-me, aflito,
o sabor da ferida aberta,
lambida pelo cão abandonado,
diante das correspondências
que, há tempos, estavam esquecidas.

Com indiferença cadavérica,
nem um uivo de rancor me dera.
Nada de novo fizera, afim de
acabar com sua mutilação destrutiva;
- Acaso não fedo com o medo
que tu me professa?

Percebi que aumentara
aquela choldra ação fausta.
E o cão continuou a lamber,
com inebriante constância e ranger,
a chaga que a mão de deus deixou,
sem antídoto capaz de fechar a
gangrena expelida com vigor.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Carne da minha carne




A carne malevolente
que estando crua e presa
dentre o hiato tordo,
sobrepujo entre os dentes,
condena todo meu corpo.

Mordo-a sem anticéptico
capaz de esterilizá-la
da insensatez tóxica
e o estímulo plutônico
mascarado com palavras.

Agrada-se com o gosto
sulfúrico do enxofre
e o bruxismo incessante.
É surda, muda – Cega.
Seduz-se facilmente.

Língua velada por versos...
Esconderijo de hostes infernais.
Aprisiona-te só aí dentro,
onde apodreces mais e mais.

Núcleo dúbio do ser ontológico;
Atalho torto para o limbo do tempo...
Destróis a forma, estética e som,
quando decides dar sobrevida
ao sopro frígido do vento.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Carta a um homicida

Este ícone único e prevalente,
o qual dar-se em volúpia
todo homem são – consciente,
foi implodido pela loucura.
Cidadão, que outrora se entregou
a verossímil farsa da humanidade,
agora desvela o orfismo oculto
que há de corroer essa inervação
paralítica da ardência selvagem.

Incognoscível fúria estercorária
que cresce a cada dia com a sintaxe
inflexível e corrupta da fealdade.
Apenas isso que sinto – Nada mais!
Foi o que restou desse corpo cremado
pela amargura pré-existente; prematura.

Tornei-me esse iconoclasta veemente
da inefável desgraça escondida
nos enigmas sujos que brotam na mente.
Sinto dor em cada vírgula errada;
Amante do próprio crime santificado.
Nessa vida assisto o crepúsculo calado
do exército de Péricles - Mortos,
a vagar vagarosamente para o abismo...
Hediondo ser vil - Vivípara libertinagem! 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Calabouço

Onde esqueci minhas chaves?
Todas as gavetas já estão reviradas,
e aqui estou olhando, estático, para
a poeira que recobre o infinito nada
no reflexo incestuoso do isqueiro.

Meus nervos pulsam com a dor
da enxaqueca crônica de todas
as noites que busco – em vão,
o sossego paralítico de viver;
- A fechadura permanece lacrada!

Trinquei a maçaneta de cristal
da excelsa porta acessível ao sonho.
Apenas desespero hermético,
por ver a cólica corroer a única
cópia que tenho dessas chaves.

Tenho que encontrá-las;
Não há outra opção existente.
Domestiquei meu hospedeiro,
durante sua relapsa procrastinação.
- Hebdômadas lunares!

Os ratos ainda estão no banheiro
roendo as sobras que me restam.
Litígio humano, cáustico – Lento!
Já estamos no outono capricorniano,
mas ainda permaneço aqui dentro.
Ludibrio a morte; cretinismo supremo. 

Tédio iminente


Minhas retinas ressecadas 
pela luz na janela da cena
imprópria em luxúria, de um
velho lixeiro a fumar charuto
apaziguado em sua amargura,
trincaram-se inteiras. 


Meus umbrais catequizados 
pelo bater de asas do pássaro cinza,
envelhece a cada manhã - Lamento!
Neurotoxina instantânea liberta;
Víbora rasteja na mente. Limítrofe.
Sensação pura - Êxtase!


Como não ouvir a sinfonia?
Escuridão em cada nota menor,
a vibrar nas cordas metálicas 
sobre o mais esplêndido ébano. 
Loucura de Mozart nos intervalos;
Jovens odaliscas enlouquecendo.


Entendo a inércia como inferioridade
da forma branda no tédio do tempo.
E assim me encontro: sempre nos cantos...
Hipotenusa cáustica na eclipse de cada passo.
Pegadas soltas na flor de lótus;
Meus passos - Meu espaço!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Murmúrio de uma mosca

Percorro de velório em velório
a buscar sementes prestes ao enterro.
Os homens repudiam meu Ballet insano,
peristáltico na sintonia do gemido alheio.
Gosto do sabor amargo da saliva dos mortos,
e ouvir as lamúrias que perdura a madrugada:
Por que você, meu filho?! Era tão cheio de vida.

Pouso nas narinas para ver poeira e bactérias.
- Mas que prato saboroso, é esse corpo humano!
Semente de ódio e destruição plantada na terra;
Que na vida é perseguido, mas também, sabe ser fera.
Que hoje dá à luz a vida e amanhã se espalha como ameba.
Homem do campo, da cidade, dos edifícios, das vitrines...
Meu zunir lhe causa náusea quando vôo mais baixo.

Sempre procuras um veneno para contaminar meu ar.
É inútil tentar me vencer! Da sopa, comi todas as letras.
Das células sugo todo o plasma, membranas – Mielina.
É engraçado ver-lhes afogar na própria soberba barata,
lamber o catarro que escorre, regurgitar sobre suas crias...
Meu bater de asas é sua nostalgia pela forma da feto-ideia,
onde descansavas no útero sempre a se encolher; escondido.

Ah! Estou indo para mais um enterro naquele último cemitério.
Lugar de plantar crianças, idosos, adultos, porém, não os poetas.
- Raça em extinção é essa! Meta-fórmica espécie canibal austera.
Pele sem cor, múltiplas formas; caracterológico de paz e guerra...
Onde eles se escondem? Quero sobremesa poética na minha fantasia.
Sugar os sonhos inalcançáveis dessas crianças crescidas;
- Comer, parte a parte, as falanges; os nervos; as idéias!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Monólogo Esquecido

Não sou um poeta morto...
Sou o poeta enterrado vivo,
agonizando; claustrofóbico.
Cortei minha própria língua
no último bonde que peguei.

No meu sepulcro comi minha
carne junto com os vermes...
- Insaciáveis e imundos como eu.
Lentamente perdi minhas funções
motoras, enquanto sufocava no
gás que eu mesmo produzia.

Não senti dor ao ver as unhas caírem,
as mãos murcharem com absinto;
Não pude gritar - Sofri lentamente...
Debaixo da terra estive apenas comigo.

- Quem diria que os vermes que desprezava,
seriam meus predadores mais vorazes?

O nada cortou minha cabeça sem aviso prévio.
Agora sou uma sombra que vaga, que traz medo.
Já não sou mais poeta, nem ao menos escriba.
Está vendo aquele livro perdido?
- Esse foi o meu eu. 

Filho Bastardo

Deixa as tuas trevas
tornarem-se um feto...
Depois, alimente-o;


Dê a ele as sustâncias
que necessita para desenvolver-se;
Virar criança, adulto...

Deixa ele ser um rebelde.
Que se rebela contra criador,
que traz a náusea; O ferimento;
O esquecer - Apague a luz e sofra!

Tormento

Toma a pena e escrevas
o tormento sem sentir pena de si.
Sinta o bafo podre da morte
que lhe sonda sem descanso.
Escrevas! É uma ordem - Inspire-se!

Deseja fugir da lama vindoura?
Acender um cigarro solitário?
Porém, agora, obedeça-me:
Escreve tuas trevas nesse
papiro envelhecido, sujo.

Escrevas sobre teu câncer;
Sobre a dor do teu fígado;
Sobre a mágoa indigesta;
Sobre a fome da alma.
Escreva com teu sangue.

O que é feio e repugnante,
quase sempre é o que salva.
Poesia mórbida; poesia vaga...
Demoníaca; possessa - Poesia!
Aponte a arma para tuas têmporas;
Bala explosiva... Poesia macabra.

Carta Ensanguentada

[Para minha deusa onírica]

A melodia melancólica

de cada dia e cada hora,
toca no chiado do rádio.
Tento um carinho leviano,
quando apresento um banquete
orquestrado sobre a cama;
Mas tu não aceitas - Por quê?

Bato a porta com amargura
só para ter um fio solto de atenção,
porém, não olhas e, tão pouco,
entendes a dor do esquecimento.
Refrigera minha chama todas as noites
a mostrar seu corpo nu, petrificado,
entre os lençóis da cama de teus pais.

O cheiro do bálsamo e mirra
nessa pele quase congelada,
em mim penetra como heroína injetada.
Cura instantânea – Mas como dói!
Rasga em meu peito a tua afonia;
Responda-me Samantha – Por quê?

Não durmas por toda eternidade;
Estou aqui ao seu lado, em pranto.
Amaldiçoe-me com o afago de tuas mãos.
Mãos pequenas, sem vida alguma...
Não vá sem mim – Não vá!

Apenas tu me amaste verdadeiramente,
em meio a todo o desastre em que nasci.
Somente em teu colo encontrei refúgio;
E como preciso desse carinho tolo...
- Apenas o teu carinho de menina levada.
Unicamente você Samantha – Por quê?

Jamais amou outro além de mim...
Um amor doentio, ciumento e imundo.
O verdadeiro amor pelo meu escárnio;
Sempre apressada a me confrontar.
Tuas cartas empilhadas na mala
dá forma a um livro sagrado que
leio todas as noites. Para onde fostes?
Responda-me...
- Por quê?

Agonia

A gênese tóxica das idéias 
parasitárias embutidas na epiglote
daquele cidadão revolucionário,
estourava tímpanos alheios a seu
bel prazer – Murmúrio coagulado.

Sonhava com um mundo mudado,
parecido com o ângulo torto do porta-retrato.
Miríade de sonhos criptografados
por um espírito soterrado na areia movediça,
com a certeza de ser livre no mundo fechado:
- Tardígrado em introspecção contínua.

Berrava nos púlpitos públicos e teatros,
o exílio mental do Oblivion midiático,
a luz das pontuações de William Blake
entre as palavras mudas do livro fechado.
Sempre com sangue nos olhos de espelho,
com a maquiagem borrada na fronte.

Aspereza à flor da pele construía seu
enigma macabro e pantanoso no corpo inóspito.
Por vezes, sentiu-se aliviado com os sons
Imperceptíveis do quarto em silêncio.
O choro ignóbil, efêmero, anuncia o que é trágico:
Suicídio! - Um pentagrama desenhado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Manjar das dores

___Aos meus 'eus' futuros, 
_____ofereço um prato saboroso 
___com todas as doenças venéreas humanas,
_____misturadas com sofrimento, angústia,
___desespero, tragédia, desastre, chacina,
_____tortura, repúdio, solidão, esquecimento,
___mágoa, ódio, traição, lascívia, corrupção,
_____contravenção e timidez.

:::::Que esses contraiam
:::::os vírus contidos na boca da fome e sofram;
::::: - Que EU sofra e goze!

**Que meu gozo percorra o mundo;
**que esse mundo se acabe em fezes;
**que essas fezes sejam as minhas.
**Que eu degluta minha própria carne,
**onde quer minha sombra vague.
**Onde o gozo antigo espalhe
**a sentença da destruição.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Para um jovem fumante

Necessito de fumaça,
sem forma alguma instituída. 
Isso! Apenas fumaça. 
Espírito que anda
na atmosfera hominídea.
Densa, macabra – excrescência.

Obrigado! Não quero gosto.
Apenas fumaça e seu cheiro
arqueada no crânio vazio.
Nuvem grotesca e instável;
Pressinto o câncer tardio.

Enche-me com o teu nada
solúvel onde é proibido.
Ofereço meu órgão doente e
imprestável... Lixo escondido.
Fumaça que vingas o fogo,
das tuas entranhas, dê-me um filho.

Nas noites envolva meu corpo,
quando estiver sóbrio ou caído.
Tua voz é aquela tosse seca;
Quase morro se não te degusto.
A traqueia, purulenta, disseca
- Tua ausência provoca o arrepio! 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Anedotas

Não vi os poros pálidos
da pedra de Drummond.
Tão pouco, o escarro
na boca de Augusto.

Na escada, vi o vômito de Rimbaud
próximo à fotografia esquecida,
tirada em dezembro passado.
Folheei páginas soltas no diário
de Carroll - Tolice!

Visitei Neruda nas praias do Mediterrâneo
à procura de Baudelaire. Foi inútil.
Coisa fútil de cidadão Tomé.

Esses dias sonhei com Clarice
a vagar num penhasco à beira da morte...
Então, senti o vazio tolo de Leminski - Sorte.
Por favor, conhaque! Mais uma dose.

Somente só

Solidão é marca de grife.
Edredom de linho; Aquece.
Solidão, pensamento flutuante
- Ninguém escapa, apenas desvia.

Solidão de mãos inquietas...
Solidão singela amiga.
Solidão de múltiplas faces:
Romances, desastres - Só!
Solidão até o fim da vida.

Solidão, a fome da alma.
Apenas eu - somente!
Aprendi a caminhar sozinho...
Solidão há tempos esquecida.

Solidão companheira e fiel.
- Caramujo gosmento, amável.
Torre de babel decaída.
Divina folha obituária;
Solidão, furúnculo homicida. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Catalepsia

As pegadas inscritas no concreto seco
de um beco sem saída, em pleno deserto,
foram as únicas obras-primas que deixei
após percorrer o caminho dos espectros.
Os quais, assombraram-me na infância
com o som de suas correntes de umbanda
envolta de máscaras oblíquas.

Catexia expectorante continha nas pílulas
do esquecimento que tomei ao acordar.
Quando avistei no núcleo galáctico, dragões siberianos
irradiantes a deslisar em flocos de neve contraventores,
friccionei minhas pálpebras desbotadas
com o calor de minhas esquálidas mãos.

Ao ver aquela sombra no corredor, excitei-me;
Congelada na luz escura de minh'alma,
esta sempre foi minha companheira.
Combateu por mim a insônia diária
alimentada pelos fluxos de pensamentos,
dos quais, tento, mas não fujo.
- Apocalípticos momentos!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Uma esquina qualquer

Naquela esquina caminhei
com passos rítmicos contados,
e olhos esquivos para antibióticos
de telúricos estudos antropogeográficos.
Constrangido por um tédio amniótico
contaminado com as incertezas do verso;
- Sim, fiquei na esquina parado!

Congelado no tempo que se vaporiza,
ultrajado pelo abraço uterino de
uma placa anêmica, onde vi passar
Judite – Andromaníaca de sagitário.

Olhos baixos para os cantos;
Epiderme banhada com os sulcos
gástricos que cai como orvalho matinal.
Donzela e mosqueteiro;
- Viúva negra de sagitário.

Pés descalços no chão frio
onde balbuciava meu nome.
Rosto de ternura pitoresca
cristalizada no retrato antigo;
- Monalisa de sagitário.

Maresia

*Clima chuvoso,
  *tédio no ar,
*corpo dengoso,
  *preguiça ocular.

*Livro fechado
  *na estante de casa;
*Gatos molhados em cima da mesa,
  *e pratos quebrados por Brigitte Bardot.

*Goteira púrpura no canto da sala...
  *Em cima da cama
*duendes passeiam.

*No céu há estrelas,
  *que não brilham a noite,
*onde a lua é tímida
  *e a maré é cheia.

Cosmopolitas



Meus passos cambaleavam 
Na sarjeta úmida de um lugar qualquer.
Enquanto moças riam com o vinho
a transbordar em seus corpos maleáveis,
aprisionadas em flertes românticos,
ao som inaudível de Ella Fitzgerald.

Pude ver no reflexo daqueles olhos castanhos,
uma legião infinita de anjos cosmopolitas,
a dançar tango com bruxas em plena fogueira,
que se materializaram nuas sob as pedras frias
de arquibancadas gregas feitas por mãos indígenas.
E aqueles anjos insaciáveis de concupiscência
tomaram-nas por deusas - Amantes concubinas!

Moças tais, que roubaram todo meu ar com
seus beijos ardentes – De forma mítica, como
serpentes distantes vindas do médio-oriente.
Quase sufocado, olhei a lua por detrás das estrelas,
e pude ver cabeças entrelaçadas: Hidras hidrogenadas!
Perdi-me em carícias francesas, entre as cortinas de fumaça
e indubitáveis belas moças com risos de princesas.

Também vi o medo na face da platéia estática,
quase tomada de arritmia cardíaca pelo desejo idêntico
de imergir naquele oceano seco de saliva salgada,
em línguas que não se falavam, porém, comunicavam
explicitamente os sentidos excitados na pele;
Sabores nunca antes provados.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Será?


Há sempre uma escolha a fazer, 
sempre um rumo a seguir, 
sempre um adeus para dar, 
sempre uma lágrima a escorrer, 
sempre um uma luz a se apagar.

Mas nem sempre faço o que escolho,
nem sempre percorro todo o caminho,
nem sempre minha despedida é um adeus.
Outras vezes, a lágrima é um sorriso tímido,
e a luz apagada, nem sempre, são trevas.

Só me decido quando não há certeza,
só sigo um caminho quando estou perdido,
só me despeço quando chego atrasado,
só choro quando o medo me faz rir,
só acendo as luzes quando a noite acaba.

A única escolha a ser feita não fiz,
o único caminho, na verdade, são dois...
Um adeus solitário é a véspera do enterro.
Uma lágrima que cai, nem sempre, toca o chão,
nem a luz que se acende ofusca o quarto inteiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Perdido em minha mente [Curta metragem]

Um pequeno filme sobre um poema intra-cefálico...

Déjà vu

Na incógnita avenida do eldorado moderno,
fotografei a inflação estóica da teia virtual 
a desabrochar em cabeças líricas ocidentais,
com seu comércio pirata em solo amazônico,
e discursos visionários para um povo faminto. 
Era como o doce que cai da mão da criança
sobre um formigueiro de idiossincráticos nomes
que vagavam na boemia noturna com peristálticas
freqüências sintonizadas no ato de auto-transcender. 

Vi Marias, Pedros, Josés, Antônios... 
Estáticos, com olhos petrificados em frente à TV.
Mimetismo subliminar decompondo seus globos 
oculares, eviscerados pela incapacidade de rebelar-se.
Em quanto isso, suas crianças ingênuas entravam
em rústicos cômodos de casas que não existiam,
eram apenas combinações binárias materializadas
na eletrostática da semântica de uma nova língua. 

Nas escolas haviam jovens de luto pela luta diária
contra suas antigas carcaças infantis, que breve
seriam enterradas no fundo de um oceano obscuro.
E ao fim do dia entravam em janelas que piscavam
em seus monitores, à busca de fugir da solidão noturna,
e compactuavam com as orgias cibernéticas em um
mundo de faz de conta.

Não havia calçadas nas ruas de pedra queimada,
onde os carros se consubstanciavam em locomotivas
desgovernadas no coração da cidade em dias chuvosos.
Então, sentei no banco da praça e esperei o vento escasso
secar-me na beira do rio, ouvindo canções de rua e sirenes 
policiais, que procuravam o escândalo daqueles que usavam
haxixe em quanto o sol sumia no horizonte metálico. 
Estava dormindo! Mas acordei do sonho anestesiado,
e tudo acontecera sem que ao menos um grão houvesse mudado.

A sombra da face rubra



Em cada palavra proferida,
há uma freqüência profética.
Para toda doença endêmica,
a gnose da suástica nórdica
é o sustento da cruz e espada
entre a multidão histérica.

Nasce um deus no sol poente:
Cataclismo econômico de estado.
A loucura austera da fome 
peregrina na mazela de Sade.
A nação é purificada pelo gás carbônico,
das câmaras feitas pelo homo criminalis,
que em suplícios platônicos,
arrancaram as vidas de esdrúxulas madres. 

A vingança estratificada 
de um Grendel frustrado,
sublima na guerra imperial
a moléstia infantil – Um ser violentado. 
Superiores de linhagem pura,
das vielas periféricas de Atlântida...
Vanglórias de deuses subterrâneos:
Gangrena de engano; varíola incurável. 

Crianças, mulheres – Cadáveres! 
Pilhas e pilhas em fossos abertos,
com cabelos raspados e olheiras profundas.
Filas intermináveis de bodes expiatórios,
com mãos calejadas por enterrar seus semelhantes:
Sangue do próprio sangue, em covas sem datas marcadas. 

Suspiro Satânico





Há mil respostas quando pergunta quem sou;
Aquilo que é já foi - opção nenhuma convém.
Enfático narcótico de amnésia futurística
a vagar na maré alcoólica de córregos anônimos,
com face caleidoscópica no véu da ciência oculta,
entre os pingos de chuva na lâmpada acesa. 

Não tenho casa que me enjaule no frio da madrugada,
apenas estradas libertinas de construções canônicas.
Meu sentinela dorme um sono límbico de lobisomem,
quase um assassino: Um terrorista maometano. 
A meu redor só vejo reféns, ingênuos puritanos,
Ativistas gays de belas igrejas, em estilo gregoriano. 

Estar sóbrio é uma maldição melancólica,
que subverte o além por coisas distônicas...
Entre o sequestro carnavalesco ou na 8ª sinfonia,
tomo um gole de vodca pura: princípio da alegria. 
Tenho riso sádico de complacente humor
sobre a vida moderna das castas na Índia.

Sou peregrino de sonhos e guilhotina de mentes,
parasita faminto, infecção cancerígena. 
Meu beijo tem gosto de velório e o sexo: enterro. 
Joguei no rio minha ultima pedra, meu ultimo riso,
minha última lágrima cósmica do cinturão de Órion. 
Estou suspenso por ser o que sou - não temo!
A estrela caída me guarda das trincheiras da vida. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Templários





Há mil respostas quando pergunta quem sou;
Aquilo que é já foi - opção nenhuma convém.
Enfático narcótico de amnésia futurística
a vagar na maré alcoólica de córregos anônimos,
com face caleidoscópica no véu da ciência oculta,
entre os pingos de chuva na lâmpada acesa. 

Não tenho casa que me enjaule no frio da madrugada,
apenas estradas libertinas de construções canônicas.
Meu sentinela dorme um sono límbico de lobisomem,
quase um assassino: Um terrorista maometano. 
A meu redor só vejo reféns, ingênuos puritanos,
Ativistas gays de belas igrejas, em estilo gregoriano. 

Estar sóbrio é uma maldição melancólica,
que subverte o além por coisas distônicas...
Entre o sequestro carnavalesco ou na 8ª sinfonia,
tomo um gole de vodca pura: princípio da alegria. 
Tenho riso sádico de complacente humor
sobre a vida moderna das castas na Índia.

Sou peregrino de sonhos e guilhotina de mentes,
parasita faminto, infecção cancerígena. 
Meu beijo tem gosto de velório e o sexo: enterro. 
Joguei no rio minha ultima pedra, meu ultimo riso,
minha última lágrima cósmica do cinturão de Órion. 
Estou suspenso por ser o que sou - não temo!
A estrela caída me guarda das trincheiras da vida. 

Para um Xamã


Catei dez mil palavras
em grãos já germinados.
Matei a fome de meus olhos
pelo alimento sagrado, que
se esconde explicitamente
no solo fértil e arado.
Ilusão cabalística – Cogumelo!
Psicodélico artista;
Mentiroso nato.
                
O martelo que bate a sentença:
Estás errado – Hipocrisia!
É a rutilância do pecado original.
O bem e mal está no fruto de
um fungo funesto que brota na mente.
Culpado e inocente compartilham
a mesma cela.

Mundo das idéias; mirabilia solvente.
Ascese multifacetada para a arquitetura
caiada, que desfragmenta o universo
transfigurado em prosa, em rima e verso
 - Multiverso é aberto: Esquizofrenia regrada. 

sábado, 1 de outubro de 2011

Psicanálise


Na p'riquita o pau:
dilacerada marca!
Lembranças perdidas
numa frecha de flor;
alimento do horror
de um voyeur
aristocrata.

A política amarga
desse clitóris rosado,
faz nascer anseios
por um amor macabro.
Por prazer, assim, me
punas: imite Nietzsche
enquanto fuma...
Lacan, imite ao recalcar.

Interprete o sonho simbiótico
no arquétipo de mãe.
Hipotético - hipnótico;
Claris'pector no espelho
de Narciso e Camões!
Tua graça é a desgraça
de coisas consubstanciadas
com o coito oculto, com
o tudo e o nada. 

Fetiche


Mulher, oh mulher!
Por que tens buceta peluda?
E quando te vejo desnuda,
desaparecem as preces
que Dom Pablo Neruda
escrevera em cartas
que ninguém nunca leu.

Seja virgem imaculada,
ou puta de profissão;
Nas gargantilhas ilhadas
entre seios erguidos,
meu gozo escorre nos teus lábios
vermelhos - tua buceta manhosa,
como Vênus, me excita.

Fetiche de feiticeira,
que peregrina em tortas eiras,
se achega na hora noturna
para dar-me o prazer que anseia.
Mulher de mil faces, mas só uma bunda...
Passeia na esquina da vida,
e ninguém mais tem
o buraco que te afunda.

Psicologia de um parasita


A navalha que corta a mão
é a mesma que corta a alma;
Do modo que atenta o cão,
a mão ressequida e fraca,
repele do alto ao chão
aforismos em gotas de mágoa.

Cai um anjo litúrgico do céu,
cai à chuva que emana desgraça...
Um sorriso cruel me ampara
do fascínio do Homero moderno,
dos patifes que nunca se calam.

Importam-se tanto comigo,
e esquecem que eles são nada.
Trapaceiros! Mendigos banqueiros,
que na rua parecem ser tolos, porém,
são impávidos monarcas.

Engravatados sentinelas - padrão de bosta!
Emaranhado de mazelas em suplícios calados;
É secreto, é macabro, é a mentira mascarada.
Corja parasitária de idéias, com suas vanglórias forjadas...
Esse espírito que anda nas leis, é o mesmo que
come em sua casa - Tácito martírio de um egocêntrico babaca.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Nasci sem ter razão

Do dia em que nasci só sei que não me lembro...
Mas berrei ligeiramente oprimido e impotente.  
Pela mão que em mim batia sinto o ódio desde então,
ao ver que a vida nasce suja e com a dor da solidão.
É como a nódoa que não sai das vestes brancas e aprumadas,
feri a pele igual à brasa até chegar ao coração.

Triste vida lamurienta de um traste sujo ensanguentado,
que nasce cego de nascença e rasga a madre de bom grado.
Como sofre o homem velho quando a morte lhe visita,
e vê que a vida é tão insossa como a puta sem malícia.
O ar circunda a luz que vem por entre as pernas escancaradas,
que traz na carne uma sentença – A foice intrépida diz: Mamãe!
                     
O carinho da mão solta, na pele fina de algodão,
da mãe estarrecida e estagnada - No chão a lágrima caída...
Ai daquele que não chora e dá sorriso de paixão!
Aqui é o tudo e o nada que outrora eu não sabia,
sinto o ar que me enche a boca como o peixe fora d’água,
engasgado com o seio; sou mamífero e enguia. 

domingo, 4 de setembro de 2011

Um dia qualquer


Um dia eu fui – Sim, eu fui!
Para nunca mais voltar,
E nunca mais pensar em partir.
Mas com olhos fechados vi
A certeza de que meu fardo 
É o que me faz sorrir.

Num sussurro de um dia quente
Em um mês impróprio
Subo e desço, corro, respiro...
Atiro no vento e acerto o opróbrio
Que no peito se cria raiz
Regado por lágrimas tais
Que meu olho cansado não quis.

Sem canção de vitória,
Com ferida na carne
Isto é trágico ou mágico,
Ou será só atriz?
No meu céu vejo vultos
Que tu não podes ver...
Pois apenas sabes o “isso”
Que o mais não vou dizer. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Miragem


Estou no centro – o sou do ser;
no fim do céu, meu mau querer.
se bem me quer me dê o pão e
quando estiver na tua mão,
atire a pedra – Eu quero ver!

Atento em tudo, sem ter intento
no lugar oculto, grotesco, inconstante...
em grutas insólitas, falaciosos gigantes;   
na maestria de ser e viver sem existir.

O que quero me consome,
é um combate desvairado
entre o pode e o pecado
no cônscio evanescer.

Pede o nada, e tudo achareis.
encontre aquilo que não procuraste,
e corra na proa, se arraste na ponte
até se achegar aonde nunca avistei. 
 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Au revoir!


A navalha que corta a mão
é a mesma que corta a alma;
Do modo que atenta o cão,
a mão ressequida e fraca,
repele do alto ao chão
aforismos em gotas de mágoa.

Cai um anjo litúrgico do céu,
cai à chuva que emana desgraça...
Um sorriso cruel me ampara
do fascínio do Homero moderno,
dos patifes que nunca se calam.

Importam-se tanto comigo,
e esquecem que eles são nada.
Trapaceiros! Mendigos banqueiros,
que na rua parecem ser tolos, porém,
são impávidos monarcas.

Engravatados sentinelas - padrão de bosta!
Emaranhado de mazelas em suplícios calados;
É secreto, é macabro, é a mentira mascarada.
Corja parasitária de idéias, com suas vanglórias forjadas...
Esse espírito que anda nas leis, é o mesmo que
come em sua casa - Tácito martírio de um egocêntrico babaca.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Profundo


Faço o que não quero...
O que quero nunca faço!
O mar negro que me abstêm
Vejo a neblina em seu abraço
Fujo do que me faz bem
Teu mau sempre me detém

No fundo do oceano estou ancorado
Fujo do amor. Um pescador de sonhos!
Sinto a dor com um sabor de mel recém tirado
Nunca limpo as teias do telhado
Que me enfeitam tão obscuramente
Como um assassino desalmado

A gota pinga, esfria, desfalece!
O afeto cresce com o chegar da tua fragrância
Mas sinto que não é essa a minha herança
Já sou parte do sepulcro inerte e lacrado
No reduto de velhos, de astutos magos
Vejo o mundo com novos sentidos

Nem sempre algo bom produz coisas boas,
Mas às vezes coisas não boas trazem bens necessários
Como os cavaleiros vitimados na guerra infernal
Que pintaram a história, com a tinta escarlate  
Fortes! Gritos de adendo ecoam-se no mar
Um sedento nadador que não se pode saciar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quase poeta

Falar sobre poesia é falar sobre expressão,
sobre um ato, um mito, um fato.
É analisar a minúcia escondida nas sobras das palavras,
é falar sobre um mar que há sob solo deserto...
Uma chave mestra que penetra portais.

Correr sem pressa no traspassar do tempo;
a poesia me flerta! Ela é errada e certa.
É um saber, um lembrar, um esquecer...
Como um segredo espalhado
contamina quem a ler.



terça-feira, 12 de julho de 2011

Venenosa

Guardei os teus resquícios na aurora celeste,
pois teu corpo tu me deste em um coito encarcerado.
transpassaste dos arquétipos para um medo ancestral,
e vejo a peste trazida do leste que não se pode mais curar.

Em seu pólen venenoso respiro o cheiro desse gozo
para nunca mais ter prova de que sou tão trivial.
Na sombra da fumaça encaro os olhos da desgraça,
seja abundante ou escassa para ver o teu flertar.

Na loucura da chama negra, da luz obscura...
Encaro a neblina inflamada por sua obsessão algemada,
caminho na lua crescente, passo portais em tempestades sorridentes;
Faz-me ser um lobo errante que feri a noite com uivos mortais.


domingo, 3 de julho de 2011

Ser alado


Cortante vento que me afoga em um respirar sufocante,
Que traz nesse simbiótico relógio a rasura inócua do tempo...
Faz-me saber, no último momento, a casta dos segredos teus.
Inflija o nascer das flores do dia. Deixe-me velejar no teu oceano!

Rasgue a noite com os relâmpagos estridentes;
Quando meu dia chegar me eleve ao cume dos montes e,
Ensina-me a voar e desvairar em um tornado incessante
Sou um incrédulo que transcende ao planar em colinas distantes.

Vejo o beija-flor que voa livre nas tuas leis...
Vento que bate no coração encarcerado
De um pássaro condenado a viver sem te enfrentar,
Tira a solidão do escravo, um sagrado segregado que jamais pode voar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Olho da rua


Na espreita de um velório
Quando quis envenenar-me
Recuei por ver perigo
Em coleiras me guardastes

Da fogueira as bruxas fogem
Na madrugada em noites quentes
Um prevalente suor frio
Que enferrujam as correntes

Sangue nos olhos dos heróis
Reencarnados nas serpentes
Ascendem tochas de discórdia
Por seus medos contundentes

Corriqueiro navegante
No rio de gente enlouquecida
Da meretriz me torno amante
Sem ter água nem comida

Condenado sem ter provas
No julgamento misterioso
Encarcerado por instintos
Fui privado do meu gozo

Descalço e nu, na rua estou
Um pedinte humilhado
Desumano e desdentado
Pela angústia sou tragado

Tu condenas o meu não saber
Pensas ser mais do que eu
Mas nasci sem ser bebê
E agora bebo o que não é meu.

sábado, 11 de junho de 2011

Quimera


Um soneto retumbante encontra-se escrito no instante do meu olhar com o teu,
pois alegorias e falanges que percorrem a tua pele ao tocar-me traz o arrepio.
Não sei se sinto o que me parece ser, ou apenas estou iludido. Talvez seja!
Face a face contigo me sinto perdido... Já não sei mais se sou íntegro ou profano;
Torna-se deusa da vontade e meu ímpio desejo jorra-se amiúde.

Há um magnetismo em ti inerente. Tu és a bela e a fera, e eu as vírgulas do conto.
Ao me achar em tuas andanças, eu era uma frágil criança em um berço de ébano...
Não sabia se no frio chorava ou se demonstrava incontrolável alegria.
Frágil e intocável fui carregado nos dorsos de dolosas fantasias,
por motivos não clarificados me vi entrelaçado na sinfonia dos seus beijos.

Hoje cresci e ceio na mesa de meus inimigos – A cascata de medos já não me submerge.
Minha vontade é explícita, fraudulenta e incontrolável. Tu fazes a chama reascender!
Quando estamos juntos, de tudo falamos, porém, nada é dito;
Tua beleza é a própria transcendência – Estou definhando pela peçonha de seus lábios.
Teu corpo seduz minha inocência. Diante de ti percorro do romance à tragédia...
És tu um Belerofonte encantado e, também, uma malevolente Quimera.